RESENHA - Tão Longe, Tão Perto
Auto-análise

Esse desentendimento e sintomático dos problemas que envolveram as relações entre literatura e psicanálise desde o surgimento da jovem tradição da escrita psicanalítica. Problemas complexos, mas que levantam questões cruciais, tanto para a teoria literária quanto para psicanálise. Os estudos reunidos por Giovanna Bartucci resultam de um momento particular da tradição psicanalítica no qual a psicanálise precisa lidar com os limites da sua própria autonomia e se perguntar em que consiste a especificidade do seu discurso – como numa auto-análise. A escravidão em busca do específico, porém, não atinge terra firme, mas apenas uma passagem para o campo vasto das experiências literárias.

Pois a matéria-prima da expressão literária se confunde com o que Joel Birman reconhece como “seiva constitutiva do escrito psicanalítico”: certa “carnalidade transferencial”, uma expressão familiar aos psicanalistas, mas estranha aos leigos, que pode no entanto ser entendida a partir do caráter intersubjetivo ou dialógico da linguagem literária. Nada mais “estranhamente familiar” do que a linguagem comum transfigurada pelo escritor para exprimir uma experiência ainda não expressa, suscitando-a no leitor. o discurso psicanalítico tambem se funda numa certa forma de diálogo, em que não cabe ao psicanalista enunciar suas conclusões, mas mostrar ao interlocutor algo implícito no que ele fala, fazer com que este perceba sua própria condição se ouvindo – para além do que disse ou quis dizer, ouvindo o que foi dito sem querer.

Voz e silêncio

A experiência de transferência no processo de psicanálise se compara a interpelação que a linguagem literária exerce sobre o leitor ao incorporar-se a sua experiência acumulada e modificá-la. Sua força não reside nas próprias palavras, mas na determinação recíproca delas entre si e na reciprocidade entre elas e o conjunto de significações sedimentadas naquele que Iê, no ato da leitura. De modo que a capacida­de expressiva de uma obra literária não reside pura e simplesmente nas letras, mas na ação que o escritor exerce sobre o leitor arrebatando-o com sua voz. o leitor, por sua vez, empresta a essa voz o corpo das suas próprias significações, fazendo com que ela soe de modo inédito.

A sombra desse outro olhar no horizonte da experiência de expressão também paira sobre uma poética do silêncio, como a de Paul Celan, mencionada no inquietante estudo de Nelson Silva Júnior sobre Fernando Pessoa. Nesse caso, e ainda mais inten­sa, pois os versos de Celan estão marcados pela dissolução violenta da identidade entre o tu e o eu do poema, revivida a todo instante pelo uso da palavra. Não de uma palavra qualquer, mas de “linguagem singular”, como diz Luiz Costa Lima citando Montaigne, a linguagem que somente o “escritor de qualidade” sabe desenvolver, mas que é empregada por quem quer que se cale por sentir que as formas feitas da linguagem não fazem jus ao que teria a dizer.

Por isso, a linguagem e essencialmente unheimlich: íntima e estranha ao mesmo tempo, capaz de fazer com que o leitor se reconheça em outra pessoa, com que um es­critor fale a uma comunidade de leitores atingindo sempre cada leitor em particular. Essa capacidade quase milagrosa de converter os entraves da vida em experiências de expressão e o que se pode en tender pelo termo forjado por Giovanna Bartucci para acolher a diversidade das contribuições que compõem seu livro – estéticas de subjetivação –, certamente derivado da sua visão da escrita literária como “lugar psíquico da constituição da subjetividade”. Giovanna mostra, a partir de Borges, que ao escrever como ninguém jamais havia escrito, atingindo uma voz própria e singular, o autor se inscreve em sua escrita, como se nela fosse ele mesmo convertido em outro. A experiência de expressão seria então semelhante à experiência do reconhecimento da imagem no espelho, em que, ao se ver como um outro, a criança toma consciência da sua individualidade e de que e um indivíduo em meio aos outros.

Por meio das “estéticas de subjetivação”, essa experiência lapidar da alteridade pode ser compartilhada, pois não se restringe ao autor. Pelo contrário, a experiência só se cumpre quando a obra de arte e vista, ou lida, pelos outros olhos a que sua mensagem se destina. Parafraseando Bartucci, a ideia que resta depois de atravessadas as diversas perspectivas oferecidas pelos textos do livro é de que o jovem Georgie não poderia se tornar sozinho o célebre Borges e que o “lugar psíquico” em que o autor aparece para si mesmo como um “duplo” é um campo intersubjetivo, pois o processo de transformação pressupõe um outro olhar, desde que se dê como uma experiência de expressão.
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