Caminhos
Uma das grandes questões suscitadas a aprtir do mundo criado por esses autoresé saber se um escritor como Balzac, por exemplo, estaria retratando a verdade subjetiva de suas leitoras, ou se estaria, num caminho inverso, “produzindo” a subjetividade feminina. E aí, a pergunta: “Seria função da psicanálise perspectivar a literatura ou, contrário, devemos nós, psicanalistas, nos debruçar sobre a literatura para compreender melhor nosso objeto, o sujeito moderno?” As perguntas são complexas e muitas permanecem em aberto.
A inocência da literatura, desde Freud, foi colocada sob suspeita num caminho sem volta. O psicanalista que investiga o texto e desvenda os conteúdos soterrados em seus “escombros” age, como escreve Noemi Moritz kon, “como um arqueólogo – metáfora largamente utilizada na obra freudiana para revelar o trabalho psicanalítico”. É com este espírito investigativo que o objeto em questão neste ensaio de Noemi – a obra “O gato preto” – é analisado numa perspectiva que vai da psicanálise à literatura fantástica.
A estranha enigmática, história do gato que assombrava o homem, levando-o à loucura e ao assassinato da mulher, é, como escreve Noemi, um ótimo exemplo do contexto literário da segunda metade do século 19 e do “caldeirão no qual foi tambémgerada a teoria freudiana”.
Limites
Em um dos ensaios mais interessantes de
Psicanálise, literatura e estética de subjetivação, Ana Cecília Carvalho analisa otema “Pulsão e simbolização: limites da escrita”, em que várias questões são levantadas, relacionando a escrita dos autores suicidas e as referências autobiográficas, às quais oleitor recorre inevitavelmente em busca de “pistas” que possam explicar, se isso é possível, os caminhos densos que levam os escritores à autodestruição.
A análise da melancólica poesia de Sylvia Plath ganba destaque nos ecos de destrutividade de suas obras. Como escreve Ana Cecília: “Embora a autora escrevesse para ‘sair do buraco’, comodisse em uma carta para sua mãe, sua escrita literária, sobretudo a do final da vida, nutriu-se, praticamente sem distância, da dor de suas próprias experiências”. Em outras palavras, uma profícua, embora cruel, combinação: o triunfo da escrita e a derrota do autor.
É claro que ligar as pontas entre vida e obra é sempre perigoso, mas não deixa de ser também tentador e, de certa forma, inevitável. O que se faz talvez impossível é desvendar mistérios maiores, tais como os limites da escrita e as razões pelas quais os autores suicidas não conseguiram superar os impulsos autodestrutivos através da criatividade de seu ofício literário.
A questão é realmente complexa e remonta a Platão – e também a Derrida – na descrição do ato de escrever como phármacon: remédio e ao mesmo tempo veneno.