Com essas questões em mente é que a autora examina não só alguns fragmentos clínicos, elucidando através deles suas observações, como também fragmentos da cultura, se assim se pode dizer, tramas de filmes, trechos de obras literárias, o processo mesmo da escritura e também trechos biográficos de Borges e do próprio Freud, todos narrados com perspicácia e delicadeza, fazendo agudos apontamentos sobre o valor da experiência psicanalítica, como um “lugar-outro”, no qual “a prática clínica deve estar necessariamente vinculada a uma reflexão teórica que torne possível a construção de novas configurações, mudanças de lugar, reorganizações dos paradigmas conceituais” (p. 168). É, assim, para a idéia de transformações no interior da disciplina psicanalítica, diante das novas formas de produção de subjetividade implicadas pelos processos de globalização neoliberal, que a autora nos convoca, salientando o atravessamento do sujeito pelas esferas públicas e ideológicas.
Se pode, no entanto, afirmar que “é certo que os sujeitos serão atravessados por elementos ideológicos e não somente por variáveis que dizem respeito às condições de constituição psíquica” (p. 96), apontando para o necessário atravessamento subjetivo por forças e elementos pertencentes ao âmbito sociocultural, naquilo que é chamado de “produção de subjetividade”, não é sem complicações que a constituição psíquica se relaciona à esfera da produção social do sujeito no mundo contemporâneo. “A questão que se coloca na contemporaneidade parece se relacionar à sobreposição – ou não – dos elementos que dizem respeito à produção de subjetividade e os elementos associados às condições de constituição psíquica dos sujeitos” (p. 96). Tudo indica que não há, na atualidade, uma sobreposição entre os elementos de uma e de outra esfera, operando-se entre a produção social do sujeito e a constituição psíquica uma dissociação.
Haveria que assinalar, de acordo com a autora, entre esses dois âmbitos de constituição, a presença de um paradoxo, examinado a partir da discussão sobre o desenvolvimento social e histórico no século XX:
Se, na atualidade, as variáveis que se referem às condições de constituição psíquica dos sujeitos e os elementos relativos à produção de subjetividade não conduzem necessariamente a uma sobreposição, a possibilidade da presença de processos constitutivos no bojo dos processos da cultura será o que nos restará considerar, afinal (p. 62).
É assim que a leitura, a escritura, o cinema, e, sobretudo, a experiência analítica, ganham em seu texto a função de processos constitutivos do sujeito que se tornarão parceiros fundamentais na tarefa de criação de sentido e de significado. Aqui encontramos a “inovação estética e o expe-rimentalismo, (...) originando-se de dinâmicas constitutivas do sujeito, e vindo a promover, possivelmente, processos reflexivos” (p. 65).
O texto lança mão de uma função utópica e, em nome“da firme esperança de um bem por vir – na medida exata em que determinada etapa histórica não seja compreendida como permanente e que a sociedade humana seja considerada capaz de mudança, o presente não sendo o seu destino final” (p. 67), procura reafirmar o caráter subversivo e fundamentalmente criador contido na experiência psicanalítica.
O oposto exato da fragilidade absoluta seria, segundo penso, a força bruta. Fragilidade é o que nos localiza como habitantes do mundo da linguagem, desamparo pelo qual nos encontramos limitados e condenados a investir e transformar. Sem algo de constituinte que nos defina a priori. Fragilidade é a deste lugar de ausência de garantias, de instabilidade de ideais e de devires. Fragilidade é a desta recusa ao império da força brutal – da tecnologia, da globalização, da economia neoliberal ou da tecnociência, por exemplo –, que reduz e comanda corpos e mentes sem considerações às suas constituições subjetivas, implicando os sujeitos em processos de produção serial e desencarnada. A defesa da fragilidade implica uma posição ética. Posição tão frágil como absolutamente necessária.
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Referências
Rilke, R. M. (1994). Cartas a um jovem poeta. A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke (21 ed., P. Ronai; C. Meireles, Trads.). São Paulo: Globo.