RESENHA - Os Jogos Da Subjetividade
Extremos da literatura
Tanto mais fascinante é o discurso analítico de Giovanna porque trabalha com os extremos atuais da literatura que, por sua vez, são mediatizados pelo cinema e a música popular. Falemos dos extremos da literatura. No livro estão devidamente individualizados pelo nome próprio os grandes escritores do Ocidente, os que Harold Bloom chamou de canônicos. Lá estão também – em igualdade de condição – os textos de “escritores” (perdoem as aspas) que se assemelham aos que se manifestam hoje através de relatos autobiográficos ou blogs. Refiro-me ao texto dos analisandos.
Leiam, por exemplo, esta passagem inspirada pelo discurso deles: “aqueles que, nascidos no pós-guerra, se encontram produtivos, temem por seus filhos e netos. Os que se encontram improdutivos tentam compreender o que deu ‘errado’, por meio de uma experiência de resignação de suas próprias vidas”. No relato singelo do vivido, no discurso avisado da experiência, Giovanna desentranha em concreto o tempo das catástrofes, prognosticado teoricamente por Baudrillard.
Da estética do blog não escapa a própria autora, já que no ensaio “Maria Madalena e Édipo complexo”, ficcionaliza a história de Maria Madalena, aparentando-a a um “caso” freudiano, isto é, a determinado tipo de analisanda nossa contemporânea. Tal o faz com um intuito claro. Ela quer extrair da leitura da sua invenção os elementos necessários para a discussão de dois processos de substituição na metapsicologia freudiana. O primeiro processo foi enunciado por Elisabeth Roudinesco e diz que o paradigma da histeria, predominante no século 19, está sendo substituído pelo paradigma da depressão. O segundo foi enunciado por Joel Birman e afirma que o conceito de inconsciente, fundamental na teoria freudiana, teria hoje o seu lugar ocupado pela teoria das pulsões.
O engodo literário (ou isca) tanto mais sentido faz porque sabemos de antemão que há dois traços de união prevalentes no discurso analítico de Giovanna, o da invenção poética e o do leitor.
Já o cinema, elemento mediador entre os extremos, comparece no ensaio “Almodóvar: o desejo como universo”, onde Giovanna efetua com grande eficiência explicações de texto bem ao estilo clássico dos professores franceses. Longas passagens do discurso dos personagens são citadas e minuciosamente analisadas. No filme, conta mais o texto do que a imagem, o que pareceria estranho a um cinéfilo ou cine-clubista. Tal pareceria estranho se a autora não tivesse escrito um outro ensaio em que debate “a eficácia clínica do processo de leitura” (refiro-me em particular às duas partes finais do ensaio).
Da parte final do ensaio retiro as palavras que concluem esta resenha: “Não mais circunscrito à palavra escrita, a noção ampliada de texto permite, assim, inserir o crítico como ‘leitor’ de sua própria vida, ao julgar estar interpretando a palavra do outro. Nesse sentido, repensar a questão da prática interdisciplinar em termos de simultaneidade temporal, e não apenas da coexistência espacial entre idéias, parece representar um avanço...” Glosando a autora, acrescente-se: Avancemos.