RESENHA - O Empório Dos Sentidos
A leitura seqüencial de três artigos do livro aponta uma Iinha mestra de fuga. Pelo viés da simbolização das pulsões, atos se tornam formas e curam o corpo do artista. A criação contemporânea questiona o silêncio do espectador, no limiar da banalização do mal. No diálogo entre Edson Luis André de Souza, João A. Frayze-Pereira e Suely Rolnik, as táticas, análises e estratégias de situação permitem estabelecer novas topografias de referência. Definindo o estatuto do sujeito pelo seu estilo, a figura de Lygia Clark pode ser emblemática: vida e obra, corpo e espírito, atitude e sublime ação.

O mérito destes textos, na extensão da reflexão freudiana, fica maior no desafio de perscrutar as produções atuais. As artes do século XX e a psicanálise foram simultâneas e, embora a segunda permeasse a primeira de forma mais explícita, a recíproca também foi verdadeira. Ambas, no Zeitgeist damodernidade, tiveram um encontro marcado, e uma escolha forçada: independência ou morte. Traduzido para o “lacanês”,separação ou alienação. Em outras palavras, a subversão do sujeito, e a dialética do ser-no-mundo.

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Subjetivação e subjetividade são noções frágeis que requerem constante aprimoramento. Esta última pode ser descrita como a consciência histórica que uma época tem de si própria, sem ser plenamente histórica, nem por completo consciente. A subjetivação, por sua vez, aponta para a resultante singular de cada um, coadunando a tríplice condição de falantes, sexuados e mortais. Estas dimensões ontológicas determinam nosso psiquismo, e pagamos com sintomas o preço de ser gente.

Nos dias de hoje, viver vai ficando difícil. O sujeito se constitui no Outro, que parece não existir mais. Será? A pós-modernidade, eclipsando muitas das convicções prévias, trouxe um conseqüente desencanto. E a expansão planetária do capital, no deslocamento veloz da informática, determinou uma temporalidade fictícia, um presente virtual e infinito. Faz tempo que o discurso da ciência deu passo à tecnologia, sua validação pragmática. Atravessados pelas mídias, nunca como dantes interligados, carecemos, no entanto, de algum relato de emancipação e prosperidade suficientemente convincente como para fornecer um ideal a altura do mal-estar da cultura.

Os objetos de consumo se introduzem nos circuitos libidinais para manobrar as pulsões, em particular a escópica e a invocante, atingindo fantasias e fantasmas. A sociedade do espetáculo, visando satisfações imaginárias, promove uma insatisfação ao mesmo tempo histérica e existencial. A repetição dos substitutivos conduz ao auto-erotismo “massivo”, ou melhor, a retroação autista da categoria amorfa de indivíduo. No extremo, viceja a pretensão de se chegar a ser indiviso, suturando e saturando a divisão subjetiva com uma mais-valia de gozo técnico. Assim caminha a humanidade.

Por estas e outras, a subjetivação não é mister garantido, exigindo éticas e estéticas. O desejo decidido se comprova no ato, pelas suas conseqüências. E quando dizer é fazer, o produzido incide na sina do locutor e feitor. A obra, entanto feitio e dejeto, pode ser qualquer coisa, sendo elevada a dignidade do objeto, isto é, sublimada. Porém, sem reconhecimento, nada feito. O feedback da alteridade continua imprescindível, chamando a responsabilidade, e ecoando um Che vuoi? Qual é a sua?

Tirante a alienação, resta a maiêutica:o parto simbólico do sujeito, por conta e risco, sob transferência.

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