Encontramos uma rede de associações igualmente rica no artigo seguinte, “O Cinema e a Potência do Imaginário”, de Camila Pedral Sampaio. Com precisão e clareza, a autora mostra como as conexões entre o sonho e o cinema (“sonho produzido pela máquina”) podem desembocar em dois tipos contrastantes de análise: se o cinema, como arte do sonho, utiliza a “potência da linguagem poética e visual (...) contra a ordem instituída do mundo” (p. 47), sua vocação é libertária e de realização dos anseios proibidos; mas, a partir do estruturalismo francês nas décadas de 60/70, critica-se o cinema narrativo e ele passa a ser visto como fonte de engano, fascínio ilusório, capturando o sujeito num “imaginário ideologicamente forjado” (p. 48). Cinema: alimento da alma ou fonte de alienação? pergunta-se a autora. Nessa última acepção, como mostra Sampaio, é notória a influência lacaniana que vê na “fase do espelho” a matriz que torna o cinema tradicional de ficção um “reflexo enganoso de uma alma unitária e produtora de sentido, reflexo no qual o sujeito mesmo resta na ignorância de si” (p. 48).
Há, ainda, outra vertente analisada por Sampaio e que pode ser estendida à arte em geral. Trata-se de entender o cinema “como busca da expressão mais fiel possível da realidade, da verdade, do real” (p. 49). A questão da representação (a
mimesis aristotélica) aparece aqui sob a “paixão pelo real” como mola propulsora da arte. Essa “obsessão pelo realismo” é a marca registrada do crítico francês André Bazin, referência de vários outros artigos do livro. Para ele, a câmera (não por acaso dita “objetiva”) é mais neutra do que o olho humano e daí sua fidelidade à realidade. É assim que, para Bazin, o cinema constrói um mundo ‘à imagem do real’” (p. 50).Portanto, como conclui a autora, é
através do imaginário que, paradoxalmente, o cinema atinge o realismo.
A imaginação é convocada pelo mais realista dos filmes, como mostra Sampaio ao comentar o fenômeno de “A Bruxa de Blair” (
The Blair Witch Project. EUA, 1999, Direção de Daniel Myrick e Eduardo Sanchez). Atores e espectadores experimentam o desconhecido e vivem um “pesadelo sinistro, alimentado pelo mais flagrante realismo”, expostos aos “sinais aterradores de uma presença do irrepresentável” (p. 59). Para a ensaísta, trata-se de uma “busca realista, que só encontra sua realização plena no domínio ficcional, talvez porque por nossa própria natureza, tendamos a só poder reconhecer neste domínio – o da ficção, o do imaginário – o sentido da realidade” (p. 60).
Em “Cinema e Poéticas da Subjetivação”, Francisco Elinaldo Teixeira faz uma complexa e rigorosa análise do que ele chama de indicadores do processo de mutação do cinema, desde a crise do cinema de autor, passando pelo reenquandramento da história do cinema pela filosofia de Deleuze (que discute o “cinema de poesia” de Pasolini), pela emergência das estéticas videográficas, até desembocar no horizonte aberto pela criação de “imagens de síntese” (povoamentos de imagens no espaço informático). Deparando-se com Deleuze, Foucault e Nietzsche, o leitor pode sentir um excesso de teorização, que demanda familiaridade com a área e um debruçar-se muito atento às articulações do autor.
Comento, ainda, mais um ensaio da “Parte Um”, “Falas Tornadas Imagens ou Imagens Faladas: Psicanálise, Godard e Tarkovsky”, de Miriam Chnaiderman, parte de uma pergunta: “Pode um sonho ser lido como um texto? Se a Psicanálise trabalha com o mundo dos afetos, como poderia a clínica ser pensada como fenômenos da linguagem? Que misteriosos processos de intersemiose levariam ao maravilhoso da psicanálise onde através da fala o corpo se transforma?” (p. 102). Intrumentalizada pela semiótica, a autora discute a polêmica da hegemonia do discursivo sobre a imagem. Mesmo assumindo, na esteira de Peirce e de Lacan, que “o que existe é um mundo de linguagem determinando o destino humano” (p. 104), Chnaiderman questiona o limite da palavra frente ao psíquico ao longo de todo texto: “O inebriamento com o verbal é narcísico, logocêntrico, parece dizer-nos Freud. O trabalho com a fala, com o verbo deve levar à abertura para o visível, para o imagético” (p. 107).
É por esse prisma - da autonomia da imagem frente à narrativa - que a autora aproxima os filmes “Nouvelle Vague” (
Nouvelle Vague, Godard, Suiça/ França, 1990) e “O Sacrifício” (
Offret/ Sacrificatio, Tarkovsky, Suécia/ Reino Unido, França, 1986): “A inutilidade das palavras, o questionamento da fala, a busca de pura-imagem na fusão com a natureza, é este o tema do filme [“O Sacrifício”]. Tarkovsky e Godard buscam o puro cinema, vão ao encontro da pura imagem ótico-sonora fazendo surgir a coisa em si mesma...” (p. 116-117).
Certamente, esse núcleo da “pura-coisa” remete ao inconsciente, à irrupção de afeto que rompe o recalque. Como se aproximar do que parece escapar ao simbólico, à metaforização, se só através desse processo é possível apreender o movimento pulsional? Enigmas da análise, que a ensaísta consegue trazer à luz pelas imagens do cinema.
1 Julia Kristeva et al. “Elipse sobre o pavor e a sedução especular”, in Psicanálise e Cinema, Lisboa, Relógio d’Água, 1984, p. 28. (Apud Renata Cromberg, no artigo acima comentado, p. 153).