RESENHA - Jogo De Espelho Entre Psicanálise E Literatura
A obra de Machado de Assis aparecerá, no ensaio de Ruth Silviano Brandão, discutida sob uma nova ótica. Tudo o que se fez até hoje de melhor e de pior no campo da crítica Iiterária da obra de Machado de Assis foi, salvo uma ou outra exceção, com as armas da crítica sociológica. No entanto, uma leitura abrangente e meticulosa da obra de Machado levando em conta os temas caros á psicanálise ainda está por ser feita. Ruth já deu um passo importante, ao ler Machado de Assis fora do clichê costumeiro de “escritor pessimista”. A leitura comparada de “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881) e de “Dom Casmurro” (1899) está entre as melhores páginas da crítica machadiana. Machado realizaria certo tipo de esvaziamento dos significantes, de superação do imaginário. Na segunda parte do ensaio, Ruth se detém na obra de Lúcio Cardoso, para então demarcar a impossibilidade de superação do imaginário. Diferentemente de Machado, em Lúcio sim haveria uma escrita labiríntica, anunciando o silêncio, a petrificação e a impossibiIidade de qualquer saída.
Estudo sobre “Aurélia” delimita armadilhas
O estudo que Mário Eduardo Costa Pereira faz de “Aurélia”, de Gerard Nerval, começar também por uma exposição de método, delimitando as armadilhas que a crítica psicanalítica deve evitar. O seu trabalho como texto literário liga-se à uma espécie de “como se”, através do qual a psicanáIise lança alguma luz a Iiteratura, e esta torna-se, em contrapartida, desde Freud, um dos principais aportes para a formulação teórica dos conceitos nucleares da psicanálise. Nunca é demais lembrar as leituras que Freud faz, por exemplo, de “Édipo”, de “Hamlet”, de “Os irmãos Karamazov”. Ou as que Lacan também fará de “Édipo”, de “Antígona”, do “Rei Lear” e de “O banquete” (de Platão). Mário Eduardo se aproxima do texto de Nerval compreendendo-o comoobra de arte e como testemunho pessoaI. O propósito do protagonista de “Aurélia”, segundo Mário Eduardo, se cumpre “através de um mergulho corajoso ao fundo da própria loucura”. A escrita, entretanto, não salva o próprio Nerval, que se suicida em 1855.
Será ainda em torno do tema do suicídio que Ana Cecília Carvalho comporá o ensaio “Pulsão e simbolização: limites da escrita”, indagando-se, a partir da poesia de Sylvia Plath, sobre a função que a escrita teria para os escritores que se matam.
Merece destaque, por fim, a leitura que a organizadora do volume faz da ficção de JorgeLuis Borges, levando a frente algumas formulações já feitas por Eneida Maria de Souza, em “Tração crítico: ensaios” (Ed. UFMG, 1993). Giovanna assinala, comBorges, que toda literatura é autobiografica. A de Borges, entretanto, autobiografia o Borges sonhado. É de Fernando Pessoa: “viver não é necessário; o que é necessário é criar”. E de Borges: “eu vivo, deixo-me viver, para que Borges possa tramar sua literatura e essa literatura me justifica”. Recriar-se, fazendo-se outro no ato de escrever – eis comoBorges formula ao seu modo oque está também em Pessoa. Giovanna fecha o volume aproximando a experiência psicanalítica do ato de escrever. Sim, uma psicanálise visa mesmo fazer de quem a experimenta um criador, um poeta de sua própria vida. O estudo da obra de Borges encetado por Giovanna nos faz lembrar uma cena de “Tudo sobre minha mãe”, de Pedro Almodóvar, quando Amparo, personagem do fiIme, diz que tanto mais autênticos somos quanto mais nos parecemos como que sonhamos.