
O mercado começa a se movimentar. A Condé Nast, a mesma da “Vogue” e “New Yorker”, planeja soltar nas bancas dos EUA uma revista de compras só para homens. O canal de TV paga Bravo vem exibindo há duas semanas o “reality show” “Queer Eye for the Straight Guy” (um olhar gay para os caras héteros), em que gays ajudam heterossexuais desleixados a virar metrossexuais.
E o território latino-americano, Brasil e México à frente, é o próximo passo. “Queremos explorar o fenômeno com a perspectiva latina”, disse Marion Salzman. “É surpreendente perceber o quanto do que é considerado traço típico do amante latino, como as boas maneiras e o galanteio às mulheres, na verdade e metrossexual”.
Brasil também tem metrossexual
Alvaro Garnero recebe a Folha em sua casa no Morumbi, em São Paulo, depois de ter malhado por uma hora e meia em sua academia particular. O empresário de 34 anos veste blusa de cashmere, calça bege e sapatos marrons italianos, sendo Dolce & Gabbana o que não é Giorgio Armani.
Durante a entrevista, que só interrompe para remarcar sua manicure para o fim da tarde e brincar com o filho, Alvarinho, que teve com uma ex-modelo norte-americana, vai revelar que gasta entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por mês em roupa e metade disso em cosméticos e cremes de beleza.
Alvaro Garnero é um típico metrossexual brasileiro, talvez o principal exemplar deles.
“Se ser metrossexual significa um sujeito que se preocupa com o visual na medida certa, então eu sou”, diz ele, que fez doutorado em finanças e negócios internacionais na Universidade de San Diego (EUA) e cuida da área internacional e de novos produtos da Brasilinvest, do pai.
O dia do empresário, que conheceu a atual namorada na Daslu, a meca dos metrossexuais, e conta em sua casa com três closets, 200 gravatas, 50 ternos e 18m2 de espelho só no quarto, envolve cremes hidratantes Estée Lauder, gel para cabelo Paul Mitchell e xampus Kérastase.
Garnero não está sozinho. Se nomes mais frequentes na mídia como os empresários Júlio Lopes e Alexandre Acciolly, o publicitário Roberto Justus e o jogador Alex Alves, do Atlético Mineiro são exemplos óbvios, é a turma mais discreta e numerosa que compõe o mercado local.
Neste nicho se encaixa Sérgio Waib, 31, diretor comercial da Jovem Pan FM e casado com a caçula do empresário Antônio Ermírio de Moraes. “Estar bem arrumado, vestindo grife, andar sempre bem barbeado é vaidade, mas também uma necessidade em minha profissão”, diz ele, que só veste camisas feitas sob encomenda por um alfaiate particular que vai frequentemente a seu escritório.
Nem todos concordam que o novo termo seja novo e seja termo. “Isso é uma bobagem sem fim”, disse a publicitária Rose Saldiva, dona da Saldiva & Associados e autora de importantes pesquisas de comportamento, como a que concluiu que mais de 90% dos brasileiros acreditava em anjos. “Além disso, é velho. Fiz esse levantamento em 1988, chamava-se ‘Narciso Século 21’”.
“Opinião diferente, mas igualmente crítica, tem o publicitário Rodrigo Leão, diretor de criação da W/Brasil, para quem “Madonna já foi tão Beckham quanto Beckham, assim como Caetano Veloso”. “Pesquisa é um farol que aponta pra trás”, disse ele. “Essa, por exemplo, detecta comportamentos que já existem há tempo”.
Tudo seria então o bom e velho narcisismo com outro nome? “Eu não estigmatizaria o sujeito”, diz Giovanna Bartucci, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. “A pesquisa aponta para um homem que, lançando mão de diferentes formas de produção de sua subjetividade, habita afinal um mundo interiorizado”. (SD)