ENTREVISTA - Uma Leitura Clínica Das Artes E Da Literatura

Em outro texto, partindo de um comentário de Michel Foucault, para quem o puro exercício de adestramento pessoal pela crítica “constitui também uma certa maneira de cada um se manifestar a si próprio e aos outros”, João Frayze-Pereira analisa as cartas trocadas entre Mário de Andrade e Cândido Portinari para afirmar que, por meio do pintor, o escritor expressa uma parte de si, dimensão que dificilmente chegaria a contemplar a partir de si mesmo.

Depois de listar uma série de trechos das cartas e questionar se a correspondência expressa uma relação de pura amizade, Frayze-Pereira escreve: “Essas cartas de Mário de Andrade tem um forte apelo para a psicanálise, sobretudo no tocante ao fascínio que o ser humano sente por si mesmo com tanta facilidade e que, novamente pensando em Freud, contribui para a dimensão alienante, própria do estado amoroso, através de uma projeção do seu ideal no outro”.

É curiosa também a epígrafe escolhida para iniciar o texto, colhida de uma carta enviada por Otávio de Freitas Júnior para Mário de Andrade: “Dê um jeito de escrever, carta sua eu acho melhor que psicanálise”. Frayze- Pereira conclui, com muito cuidado, que a magoa e o ressentimento revelados por Mário em relação a Portinari são consequencias de uma aflição frente ao risco de perder os outros. A afirmação não é taxativa, assegura acertamente o autor, por não ter a chance de conviver com Mário de Andrade, o que seria útil para seu devaneio associativo e o trabalho paciente de escuta.

O terceiro volume da mini-coleção, Psicanálise, Arte e Estéticas de Subjetivação, que a Imago deve lançar no início do próximo ano, vai trazer Minuano, diário da concepção e produção da instalação permanente que tem o mesmo nome, realizada por Nuno Ramos nas proximidades do município gaúcho de Barra do Quaraí, na fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai. “Nesse sentido, a psicanálise também funciona como instrumento crítico da cultura – intrometendo-se, promovendo cortes, discriminando, separando, constituindo uma diferença, promovendo ‘permanência’, neste nosso mundo fugaz e descartável”, comenta Giovanna.



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