
Psicanálise como produto e produtora da modernidade – a partir deste pensamento, a psicanalista e ensaísta Giovanna Bartucci organizou uma pequena coleção de três volumes que relaciona a psicanálise com as artes, em especial o cinema, a literatura e os trabalhos visuais em geral. O primeiro volume, Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação (Imago, 263 pags.), foi editado no ano passado. O seguinte, Psicanálise, Literatura e Estéticas de Subjetivação (Imago, 412 pags.), será lançado amanhã, entre 19 e 22 horas, na livraria Fnac Pinheiros (Rua Pedroso de Moraes, 858). Haverá ainda um debate sobre psicanálise e literatura, com a coordenação da mesa de Alberto Dines e a participação de Maria Rita Kehl, Marilia Pacheco Fiorillo, Miriam Chnaiderman, Nelson da Silva Jr. e Noemi Moritz Kon.
“Assim como a experiência de uma psicanálise, a literatura, o cinema e as artes em geral seriam ‘lugares psíquicos de constituição de subjetividade’, para aqueles sujeitos cujos destinos serão sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável”, comenta Giovanna. “Dessa forma, há aqui a ideia de interminabilidade, de um ‘constituir-se’ permanentemente”.
Nesse sentido, o convite feito a cada um dos colaboradores não foi gratuito, observa Giovanna. Artistas, cineastas, escritores e psicanalistas de diferentes orientações teórico-clínicas encontraram na temática e interlocução propostas a possibilidade de dar continuidade às próprias pesquisas.
É o caso, por exemplo, do crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet, que monta sua reflexão a partir de sua própria produção cinematográfica, que são os filmes São Paulo Sinfonia e Cacofonia (1995) e Sobre Anos 60 (1999), obras montadas a partir de colagens. O resultado é o texto A Subjetividade e as Imagens Alheias: Ressignificação, em que o processo é explicado. “Ao fazer filmes com pedaços de filmes já feitos, penso assumir plenamente esse ser que se vive como um feixe em que são discerníveis os gravetos que se poderia considerar pessoais e os que se poderia considerar sociais”, escreve.
O ponto de partida de todos os demais textos é o mesmo, ou seja, uma reflexão iniciada tanto por um trabalho pessoal como provocada por outras pessoas. É o caso, por exemplo, do texto do psicanalista e professor Joel Birman: a partir de um comentário feito por uma jovem estudante, que revela seu desagrado com o filme Táxi, de Carlos Saura, por não apresentar a depuração técnica e o virtuosismo na direção constante nos seus outros filmes, Birman faz uma consideração sobre a feiura, classificada como forma de horror no neonazismo.
Papel do feio
“Neste universo macabro, a alteridade enquanto tal deixa de existir, ameaçando com a barbárie não apenas a existência da cultura espanhola como também de toda a tradição européia”, escreve Birman. “É isso que a nossa jovem crítica precisa compreender profundamente, para que sua veemência possa ser a fonte de uma verdadeira poiesis. Para isso, enfim, é preciso enfatizar o papel do feio numa literatura crítica da atualidade, no qual se suspende o belo e se repõe o trágico como sublime”.
“Nesse sentido, a analogia entre o indivíduo e sua cultura pode ser fiel e instrutiva, mas ainda assim é uma analogia”, observa Giovanna Bartucci. “É nesse sentido que há autores contemporâneos (a psicanálise pós-freudiana) que entendem que a leitura freudiana do mal-estar na modernidade se realizou numa linguagem psicanalítica, efetivamente – consequentemente ‘a psicanálise seria uma leitura da subjetividade e de seus impasses na mordenidade’”.
O livro que será lançado amanhã, Psicanálise, Literatura e Estéticas de Subjetivação, segue a mesma linha que o primeiro volume da coleção e antecipa trabalhos de seus colabores. A obra abre com um texto da escritora e historiadora Marilia Pacheco Fiorillo, que antecipa capítulos de sua novela inédita, O Jardim das Delícias. Trata-se de um romance que se ocupa do desencontro entre os sexos. “Mas apenas do desentendimento entre uns e outros: cristãos e muçulmanos, pagãos e cristãos, irmão e irmã, eventualmente até entre amantes”, escreve Marília, que se inspirou em uma obra árabe do século 14.