GB - O que o sr. pensa do conflito entre judeus e palestinos no Oriente Médio?
SK - Essa é uma das tragédias mais profundas de Israel e do povo palestino. O povo palestino não só tem direito de ter o seu próprio Estado como também é indispensável para o judaismo de Israel que esse Estado exista. [O premiê] Ariel Sharon é uma figura trágica na vida do judaismo contemporâneo, uma vez que mostra a incapacidade que o govemo israelense tem de levar adiante projetos de conciliação pacífica com a cultura palestina. Israel, que é uma nação democrática, não terá porvir em termos democrátios se a sua liderança continuar sendo militarista.
GB - Uma das grandes ameaças à democracia é a simulação, ou seja, a manutenção de uma aparência de democracia.
SK - Acho que você tem razão. Os países da América Latina correm o risco permanente de uma simulação democrática porque não é possível conciliar a estabilidade constitucional e a legitimidade institucional das democracias com a injustiça social. A medida que as nossas democracias não resolverem o problema da estabilidade constitucional e do desenvolvimento de políticas de justiça social, são democracias aparentes
GB - Como no caso argentino?
SK - Acredito que a democracia argentina seja um processo incompleto e permanecerá assim enquanto o peronismo continuar à frente do país, uma vez que é uma força antidemocrática na sua estrutura, ao não privilegiar a supremacia do ideal republicano acima dos interesses corporativos. Tivemos, nos útimos 20 anos, um progresso importante. No entanto a atual crise argentina só poderá começar a ser resolvida por aqueles líderes que agirem em razão da desestruturação do sindicalismo, da possibilidade de outorgar à Justiça a autonomia que hoje ela não tem e à medida que as corporações privilegiarem consideravelmente os interesses da nação acima dos interesses setoriais.
GB - Qual é, da sua perspectiva, a responsabilidade do intelectual, no que diz respeito à atual crise mundial?
SK - A responsabilidade primeira do intelectual é fazer com que o relacionamento entre ética e política seja cada vez mais profundo, ainda que essa conciliação jamais possa ser definitiva. Mas é preciso que a política reconheça a sua dívida para com a ética e que a ética compreenda que o seu porvir e político, ou seja, que todos os relacionamentos éticos devem se desenvolver numa práxis política, uma vez que a política é o cenário em que os homens tentam aprofundar a sua capacidade de convivência.
GB - “Ao alcance do homem está sempre a faculdade de legitimar o que Ihe acontece”: essa é outra ideia que impregna a sua obra. O sr. diria que a sua proximidade com a psicanáIise freudiana é grande?
SK -A psicanáIise é, hoje, cultura, ou seja, um dos instrumentos que a cultura tem para pensar a experiência histórica do homem. Nesse sentido, a minha aproximação é dupla: fui e serei paciente psicanalítico, mas, além disso, a leitura da produção psicanalítica nos possibilita entender de maneira original uma das condições da finitude humana, ou seja, o fato de que o homem não é essencialmente um possuidor da realidade. É uma criatura sujeita à leis tão determinantes da sua idiossincrasia, como uma criatura capaz de transformar a realidade por meio de sua própria iniciativa criadora. A psicanálise ilumina os limites e as possibilidades da nossa experiência.