ENTREVISTAS - O Caminho Da Literatura
GB - Em relação ao cinema? Ou, ainda, às artes em geral?

SS - De maneira geral, a análise sugerida acima pode servir de guia. No entanto, há uma diferença fundamental entre o campo da literatura e das artes da imagem. Refiro-me à entrada em cena do museu nas metrópoles. Vamos a algumas pinceladas. No tocante ao cinema, o museu substitui o amadorismo idealista do cineclube e, no tocante às artes plásticas, minimiza o poder jubilatório da comercialização dos objetos artísticos pelas galerias de arte. Em ambos os casos, repare que a ênfase na qualidade é mais importante do que a ênfase nos respectivos modelos estéticos canônicos, ou seja, a ênfase no papel do espectador é mais importante do que a ênfase nos valores definidos pela tradição estética. Por outro lado, também se questiona a passividade do consumidor pós-moderno, entregue hoje, no caso do cinema, ao comércio fácil e rendoso dos vídeos e dos DVDs.

Exemplos não nos faltam. Ainda no caso do cinema, graças ao museu, há o retorno ao nosso dia a dia da produção dos curtas-metragens, cada vez mais experimentais numa arte que mais e mais exigia o capital como fundamento e jogava totalmente para escanteio a graça das ousadias formais que a vinham acompanhando desde as vanguardas históricas. O velho cine-clubismo, por ter sido sustentado pelos pilares do culto aos valores puros da sétima arte e por não ter conseguido desenvolver uma ponte com a universidade, era o próprio reino da adoração. Aliado às escolas de cinema, o museu tem podido dispensar aos jovens cineastas um espaço de divulgação do seu material que realmente nos obriga a rever os limites determinados e cicatrizados pelo cinema comercial.

Em artes plásticas, a ênfase na qualidade do projeto e não na pureza canônica do produto tem sido solidificada não só pela abertura dos museus (em particular os brasileiros) para a exibição de arte contemporânea, como também pela revolução que as artes plásticas sofreram desde Lygia Clark e Hélio Oiticica ao se abrirem para a fruição comportamental pelo espectador. Ao questionar o suporte do quadro e do prego na parede, ao questionar os fundamentos da lei da gravidade e do chão, os objetos artísticos, à semelhança do que propunha Calder, ganharam a insustentabilidade do ar como suporte, exigindo que o espectador passasse por experiências que lhe eram propostas pelos objetos e/ou pelo artista. As reações conservadoras ao trabalho extraordinário dos museus no campo das artes plásticas têm levantado as vozes de alguns críticos, que não suportam ver as salas das instituições tomadas pelas instalações. Curioso é que os amantes de cinema entendem perfeitamente o bric-à-brac que se passa nas salas de cinema dos museus.

GB - E qual a função do intelectual nesse século XXI?

SS - Há intelectuais e há artistas. Na maioria das vezes estamos diante de personalidades completamente diferentes. Muitos intelectuais são artistas e muitos não o são. Muitos artistas são intelectuais e muitos não o são. Tomo a sua pergunta ao pé da letra e deixo na berlinda apenas os intelectuais.
Sua função hoje está comprometida pela sua formação. Não imagino que surja nos nossos dias alguém como Jean-Paul Sartre, que ao final da Segunda Grande Guerra defendeu a idéia de que o existencialismo era um humanismo. A consagrada formação humanista, que é sustentáculo da idéia de universidade, ruiu nas últimas décadas com o avanço da especialização e da tecnologia, tanto entre as ciências hard quanto entre as ciências sociais e humanas. O exercício, ou seja, a função do médico pode servir de exemplo concreto, levando em conta, de um lado, o papel extraordinário desempenhado pela fragmentação do saber pela especialização e, do outro, pela grita geral dos clientes ao clamarem pelo retorno dos generalistas. Analisado de perto, o clínico não é mais detentor do poder do diagnóstico. Nos casos mais complexos, ele apenas detecta o problema e encaminha o cliente para o diagnóstico do especialista. No fundo, ele detém a melhor caderneta de endereços da cidade, do país ou do planeta terra.

No campo das ciências sociais, o intelectual humanista foi também substituído pelo especialista. Isso graças às exigências do próprio funcionamento interno das universidades, que contraditória e paradoxalmente passaram a exigir maior rigor científico na análise do detalhe. O fenômeno pode ser visto de maneira concreta no manuseio das velhas revistas universitárias, que se abriam com ensaios filosóficos e continuavam por matérias que tentavam cobrir o todo das ciências humanas e sociais, e no contraste delas com as novas revistas universitárias, cada vez mais orientadas por um setor do conhecimento e para um leitor pré-determinado.

O fenômeno trouxe um desgaste enorme para a função do intelectual, tal como fora instituída e consagrada no início do século XX pelo famoso affaire Dreyfus. Um dos casos atuais mais notáveis é o do lingüista Noam Chomsky. Ele não é requisitado pela imprensa e pelas editoras para falar de lingüística, campo em que seu saber é inquestionável. Ele opina e fala sobre a presença nefasta da economia e da política norte-americanas no mundo globalizado. Como disse Maurice Blanchot, em resenha de livro que coletava as várias contradições e vitórias do intelectual dreyfusiano, é em virtude do reconhecimento público ao alto nível do saber especializado, que alguns intelectuais ganham autoridade para falar indiscriminadamente sobre todos os assuntos que o tocam direta ou indiretamente, muitas vezes expressando a sua opinião através da assinatura em manifestos a favor dessa ou daquela grande causa. Entre nós, Oscar Niemeyer é o último e o mais notável dos intelectuais dreyfusianos. Chico Buarque já se mancou e mantém discreto silêncio sobre as questões gerais. Em entrevista ao programa “Hardtalk”, da BBC, o cineasta Sidney Pollack deu-nos exemplo do uso que os conservadores estão fazendo de intelectuais (no caso, também cineastas) norte-americanos que seguem a tradição dreyfusiana. Pollack informou ao entrevistador que, na cidade de Los Angeles, existe um gigantesco outdoor em que a direita conservadora de Hollywood agradece (sic) a Susan Sarandon, Sean Penn e Michael Moore pelo papel que desempenharam na reeleição de Bush.

Os meios de comunicação de massa do ocidente, em especial as televisões a cabo, têm procurado minimizar o desgaste sofrido pelo intelectual dreyfusiano junto ao público carente de um pensamento pluralista e democrático. Dessa forma é que estão abrindo espaço (o jogo está no próprio título do programa do canal 40, “Espaço aberto”) para a fala de especialistas que têm o dom da comunicação do seu conhecimento especializado ao grande público. Nos Estados Unidos, esses intelectuais são hoje qualificados de “públicos”. Intelectuais públicos. Para entendê-los melhor, basta comparar a figura e a função de Chomsky, enquanto lingüista e intelectual, com o grande especialista em matéria do Oriente Médio e da Palestina que é Edward Said (recentemente falecido). Said era capaz de destrinchar situações complicadíssimas e distantes para muitos de nós num estilo acessível a todo e qualquer espectador curioso e inteligente. Um especialista que, quando solicitado para a fala pública e/ou pelos meios de comunicação de massa, é capaz de manejar vocabulário e sintaxe não-especializados. Seria essa a função do intelectual no século XXI? Quem não morrer, verá.

GB - Utilizando-se de uma lente grande angular, você focalizaria o futuro? Como você o faria, e como você o vê?

SS - Sou um otimista sem convicção, vale dizer, quase um pessimista. O resto subentende-se.
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