GB - Literatura gay? Literatura feminina?
SS - Todas as vezes que você adjetiva alguma forma de arte, você está tendo interesse em falar de outra coisa. Quem enuncia a expressão adjetivada está mais interessado naquilo que o adjetivo carreia. Vamos a um exemplo simples. Literatura parnasiana, simbolista ou modernista – trata-se de evidente cacoete acadêmico. Condiciona o estudo e ensino das letras a uma configuração das sucessivas fases da história literária, segundo o estilo dominante nessa ou naquela época. Ultrapassam-se as fronteiras nacionais, ocidentaliza-se a noção de literatura, transformando-a em belles lettres. Enxerga-se o conjunto como parte do “universal”, passível de ser dividido, catalogado e interpretado nacionalmente através de metodologia cujo fundamento estético é dado pela estilística.
A literatura feminina e a literatura gay, bem como a literatura étnica, se adjetivam por razões que a razão literária até então desconhecia. Usam o adjetivo de maneira pérfida, para sabotar. O adjetivo passa a não ter importância qualitativa ou restritiva, servindo antes para desconstruir três dos conceitos acima esboçados: ocidentalização, universal e belles lettres. São adjetivos que, aliados aos que carreiam a noção de etnia, colocam contra a parede a instituição ocidental conhecida como Literatura, que sempre teve pretensões universalistas, etnocêntricas e falocêntricas. Teremos de conviver (nós, os velhos, teremos de aprender a conviver) com a liberdade retórica COM gênero, etnia e preferência sexual. A produção literária passa a se relacionar de modo confessional e lírico com a linguagem, retirando sua força não das firulas do cânone, mas da experiência libertária de corpos multicoloridos, sexuados e sofridos na pele, que vivem e sobrevivem na diferença.
GB - A criação: “um exercício constante (e cotidiano) da imaginação em liberdade”? Liberdade?
SS - Para o artista, o conceito de liberdade tem pouco a ver com o vôo do pássaro pela imensidão azul, tem mais a ver com a beleza pujante da flor, que, desprovida da haste que a liga à planta, fenece, perde a pulsão vital, vira forma. Em outras palavras, para o artista o conceito de liberdade só tem sentido se oposto ao conceito de norma, de onde retira a sua força e beleza. A liberdade, portanto, é uma força do contra. Num romance meu, Em liberdade, chamei-a de forma-prisão, porque nascida e dependente duma margem, que eram os escritos carcerários de Graciliano Ramos. Estes serviam como ponto de apoio e de arremesso da minha própria escrita em liberdade. A liberdade é força dependente e ativa, dependente da norma e, no entanto, questionadora dela. O grau de independência da liberdade artística se mede pelo grau de transgressão à norma que a obra consegue articular. Não existe, portanto, liberdade sem cordão umbilical, a não ser numa sociedade totalmente anômica, ocasião em que tudo seria permitido e, por isso mesmo, desnecessário o conceito. Por tudo isso, a liberdade é produto dum exercício constante e cotidiano da imaginação criadora em sociedades que se afirmam pelo cárcere dos costumes, do preconceito, da intolerância e das leis. Fora disso, ela é a peça retórica mais chique do liberalismo, ombreando com a fraternidade e a igualdade.
GB - Como a experiência de Eduardo, personagem seu em Stella Manhattan, romance de 1985. De qualquer forma, explicite um pouco mais, por favor, o que você entende por “qualidade literária”.
SS - Na expressão proposta para discussão, direi que cada vez mais o substantivo (qualidade) é mais importante do que o adjetivo (literária). Enfatizar a “qualidade” significa, por um lado, dar maior importância ao leitor do que ao consumidor, num processo de sabotagem das teses hegemônicas sobre a cultura na sociedade pós-moderna e neoliberal, que García Canclini tem espalhado pelo Brasil e os livros de Paulo Coelho consagrado. O desequilíbrio entre o adjetivo e o substantivo traduz, ao mesmo tempo, uma atitude de despudor estético, de tolerância artística, já que importa cada vez menos se o objeto analisado é dependente, ou não, da “tradição literária”, tal como instituída pela civilização ocidental ao longo dos séculos.
Como tentei propor em resposta anterior, a noção canônica de literatura, ao se transformar na modernidade em produção textual – e com ela se confundir –, trouxe uma abertura para a compreensão analítica da caracterização das rapidíssimas transformações pelas quais o fenômeno literário vem sofrendo na complexa atualidade artística e tecnológica. A última e mais popular das mutações no campo da produção textual leva o nome de blog, e tem como suporte, não mais o livro, mas o monitor do computador. As mutações que a noção da produção textual traz para o espaço canônico da literatura são de tal modo impulsionadas pela velocidade (qualidade por excelência dos tempos modernos desde os manifestos futuristas) que fica difícil de fazer o mapeamento das várias formas textuais que surgiram como literárias e/ou artísticas e permaneceram ou desapareceram.
Sem dúvida, em toda essa complexa e pouco mapeada e menos ainda analisada questão, há que dar destaque para a disseminação do computador entre os jovens letrados, sofrendo a “literatura” um toque de subjetivação, periodicidade e permissividade, que tinha sido perdido, desde fins do século XIX, com a sua expulsão do primeiro caderno dos jornais. Não apenas está se modificando o quadro clássico da produção textual, que importava a passagem obrigatória do texto pelo parque editorial, como também e principalmente modifica-se o quadro clássico da divulgação do produto, tendo a passagem obrigatória pelo comércio das livrarias sido substituída pelo passeio do leitor pelas auto-estradas da internet, seqüestrando para si o texto alheio. Desde as ousadias da chamada geração mimeógrafo, nos anos 1970, nunca a produção e o comércio do livro (da produção textual) tinham passado tão ao largo dos produtores e divulgadores hegemônicos do produto. Os meios de comunicação de massa tradicionais, com a disseminação popular do PC e da internet, estão sendo obrigados a encarar a atitude revolucionária que se consolida no produzir e divulgar a literatura. Produção e disseminação do texto no cotidiano das pessoas abalam os sólidos alicerces que foram plantados por anos e anos de “desliteraturização” nos meios de comunicação de massa.