O CAMINHO DA LITERATURA
Em entrevista para o Portal Literal, Silviano Santiago fala da ficção como liberdade acima de todos os gêneros e da crítica como cartografia da multiplicidade
Publicado em Portal Literal.com.br
29 de julho de 2005
Por Giovanna Bartucci
Psicanalista e ensaísta
Foto: Ângelo A. Duarte
Premiado por três vezes com o Prêmio Jabuti nas categorias romance e conto, e também com o Prêmio Artur Azevedo, da Biblioteca Nacional, membro eleito do Pen Club International, com traduções de obras suas publicadas na França, nos Estados Unidos, na Itália, na Argentina, o escritor Silviano Santiago lançou Histórias mal contadas (Rocco, 198 págs.), seu terceiro livro de contos. Um de nossos mais importantes intelectuais, com atividades docentes no Canadá, nos Estados Unidos e na França, professor aposentado na Universidade Federal Fluminense, Silviano Santiago foi também agraciado Chevalier dans l'Ordre des Palmes Académiques e Officier dans l'Ordre des Arts et Lettres, pelo governo francês. Publicou, no ano passado, O cosmopolitismo do pobre (Editora UFMG), importante livro de ensaios voltado à crítica literária e cultural. Aqui, no entanto, o escritor – que se autodenomina “um produtor de textos” – fala sobre a literatura e a sua função na pós-modernidade, sobre o exercício de criação e as artes, sobre a liberdade e o futuro.
Giovanna Bartucci - Literatura com ele maiúsculo ou com ele minúsculo?
Silviano Santiago. As duas, ou as três ou as cinco manifestações de “literatura”, porque há que levar em conta também os produtos artesanais, os da internet e as mercadorias da grande indústria editorial. Vivemos uma época de inclusão e não de exclusão, exatamente porque é dessa forma estrambótica que se articula uma liberdade retórica com gênero gender a uma crítica tanto à definição do produto-em-escrita-fonética como sendo apenas mercadoria quanto ao domínio todo-poderoso do mercado como mecanismo hegemônico de valorização. Alguns outros ainda querem se manifestar e rezar pelas belles lettres, outros mais querem deixar que o corpo tatuado pela atualidade lance palavras lancinantes na folha de papel. Outros, finalmente, querem viver dos direitos de autor, embora sabendo que o quente no mundo neoliberal são os direitos de cópia. A multiplicidade fragmentada é um dado empírico na pós-modernidade, passar por cima dela é manobra de jamanta. Por isso é que, a não ser nos momentos extremados de lucidez, os chamados críticos e historiadores tornamo-nos evidentemente cartógrafos como outros, antigamente, foram hábeis no manuseio do arco e flecha e outros mais nos floreios da esgrima.
Os escritores da velha e tradicional literatura (a que se diz com L maiúsculo) somos seres pacíficos e melancólicos. Alçamos a voz para dizer, no contrafluxo, que é bom que a grande tradição literária do ocidente continue a dar frutos. Há que acreditar que o livro de literatura é objeto muito especial na pós-modernidade. Sem efeitos sociais visíveis, mais para as profundidades abissais do túmulo de Edgar Alan Poe (ver o poema de Mallarmé), do que para o bem-querer da indústria editorial. A grande literatura vive de aparas (de papel) e de sobras (no lucro das empresas) e, por isso, sua inserção no mercado e na atualidade já vem à luz guilhotinada. A beleza fúnebre do cadáver se mescla com a intensidade e a complexidade na significação. A livraria que oferecer apenas livros da grande literatura é um lugar de visitação pública, semelhante a um cemitério, onde foram depositadas as flores da teimosia.
GB - Que função você atribui à Literatura? Ou às literaturas, nesse século XXI?
SS - Por incrível que pareça, por paradoxal que possa parecer, é na era do computador e da internet que estamos saindo do século da imagem por excelência, o XX. E dele estamos saindo com grande respeito pela linguagem fonética. Quando tudo parecia que sobreviveríamos no século XXI para nos comunicar por sinais e agressões, tal trogloditas, descobrimos que por detrás de filmes fascinantes há scripts mais fascinantes ainda. Já que abrimos o leque das possibilidades literárias, é preciso continuar alargando a sua abrangência, percebendo o que há de “literatura” tanto no teatro contemporâneo e nas telenovelas, quanto nos sit-coms e nos blogs, tanto nas artes plásticas quanto na música popular e erudita. Percebendo, ainda, o que há de literatura na recorrência fundamentalista, ou não, dos escritos religiosos. Sinto-me totalmente ridículo hoje por não ter percebido a qualidade literária, por exemplo, de Hélio Oiticica, no momento em que, em Nova York, rabiscava os seus planos com imagens e palavras, elaborava os seus projetos conceituais, escrevia suas heliotapes, e assim por diante. Sinto um grande alívio ao poder perceber hoje que existe uma qualidade literária nos trabalhos de Rosângela Renó. Esse alívio sinto-o só agora porque só neste momento é que me tocou pensar que o século XXI, ao postular as possibilidades infinitas da “literatura”, está deixando com que possamos exauri-las com deleite e fervor, já que sabemos – e como! – que não podemos exaurir o muito que nos promete a verdadeira felicidade. Sem utopia, há uma benesse que advém da anarquia do infinito. Essa é a função abusiva e perigosa da literatura, das literaturas no século XXI – solicitar que se mame desse caldo literário anárquico e verborrágico, que pode nos conduzir a nada e pode nos incitar ao desejo de pôr ordem, encaminhando o novo milênio para o vácuo estreito da razão e da paz.