Maria nunca foi adotada. Até os sete anos, ficou na Santa Casa; depois foi estudar em um orfanato, onde ficou até os 18. Dali, saiu para trabalhar como empregada doméstica no Rio de Janeiro. Até se casar, aos 21, seu nome completo era “Maria Candida”, sem sobrenome algum.
Até hoje - seis filhos, nove netos, dois bisnetos depois -, ela se incomoda com o branco da biografia. “É como ter em casa uma parede com um retrato sempre vazio, dá uma tristeza”, compara. Achar algum laço com o passado foi um pensamento constante.
“Pensei em procurar pelo rádio, mas não tinha nenhuma pista... Hoje é mais fácil encontrar, né? É chocante você não saber de onde veio. Eu superei isso porque tive sorte, formei uma família linda”.
Objetivo comum - Na busca pela identidade, adotados, abandonados e inseminados se igualam na mesma necessidade, a de reescrever a própria história. “Na verdade, a pessoa não vai atrás desse pai ausente, e sim de si própria. No caso de indivíduos com ‘dois pais’, a angústia se dá porque ele sabe que o biológico está lá, em algum lugar; ele precisa de suas respostas”, afirma a psicanalista Giovanna Bartucci, 40.
E, mesmo que vivam uma relação familiar boa, sempre sobra espaço para a curiosidade. “Eu amo meu pai; além de ser um de meus melhores amigos, ele é, sem dúvida, ‘o’ meu pai. Mas eu não posso negar meu desejo de saber quem é esse homem anônimo, por que ele foi bom e doou sêmen”, afirma a estudante australiana Geraldine Hewitt, 19, que faz via-sacra por hospitais e clínicas de Sydney tentando descobrir sua paternidade biológica.
A procura, até agora infrutífera, não incomoda o pai, que tem mais dois filhos, cada um gerado por um doador diferente. “A gente faz até piadas em família. Eu sempre digo a ele: ‘Ainda bem que não herdei seu narigão’, e ele ri”, conta Geraldine.
É a mesma curiosidade “desencanada” que move a professora Camila Rocena Quevedo, 25, adotada, cuja mãe natural morreu no parto, sem deixar nenhum referencial de identidade.
Entregue a um casal sem filhos, Camila virou o xodó do pai, mesmo depois da chegada de duas filhas biológicas. “Não consigo me ver em outra família, mas queria conhecê-los só para saber como eram”, diz ela. Depois, resume: “Acho que eu me contentaria vendo uma foto”.
Ela conta que costumava pensar muito sobre de quem teria herdado os olhos ou os cabelos, mas que essa fase passou. “Antes, eu ficava sem graça quando as pessoas diziam que eu e meu pai somos parecidos ou que eu puxei várias coisas dele. Hoje, acho até que isso é verdade”.
Precavida, a aeronauta carioca Bárbara
1, 36, garantiu pelo menos a foto de que Camila sente falta. Homossexual, ela diz que sempre quis ter um filho e achou que a opção do doador desconhecido seria melhor que recorrer a um amigo. “Mas eu queria ver as fotos dos doadores e no Brasil isso não é possível, o sigilo é absoluto. Por isso, resolvi recorrer a um banco dos EUA”, conta.
Gerado com o sêmen de um fotógrafo americano, Breno, de dez meses, tem à sua espera uma pasta com informações sobre os hábitos, preferências e até uma foto do seu pai biológico quando criança. “Ele vai saber de tudo e, se quiser procurá-Io, não vou me opor”, diz a mãe.
Mesmo porque isso seria inútil, como se vê pelos outros entrevistados nesta reportagem. Fantasias e dúvidas, que já são usuais em qualquer ser humano, ganham um estímulo extra sempre que algo parece inacessível, segundo Luiz Cuschnir, psiquiatra do HC. “Pensar no pai biológico desconhecido amplia uma indagação possível para qualquer ser humano: ‘O que seria de mim se eu tivesse nascido de um outro pai?’”
Quem nunca se perguntou isso que atire a primeira pedra.
1 Nomes trocados a pedido.