O canadense conta que os médicos achavam que seria melhor para as crianças ignorar as circunstâncias em que haviam sido geradas. O sigilo, porém, não ajudou muito. “Sempre me senti desconectado do meu pai, parecia que ele não estava à vontade naquele papel. Acho que o segredo acabou abalando a estrutura da nossa família”.
Há dois anos, lembra, decidiu ceder aos impulsos. Foi para Londres, onde a mãe havia sido inseminada, revirou arquivos e antigas relações dos médicos que o “criaram”, entrevistou centenas de pessoas. Nunca encontrou o doador, mas ele e Janice acabaram conhecendo um meio-irmão, um advogado londrino gerado com sêmen do mesmo homem.
No ano passado, a busca por sua herança genética virou um documentário, “Offspring” (Descendente), que foi ao ar nas TVs canadense e inglesa. David acha que, se tivesse descoberto a verdade com o pai vivo, poderia tê-Io entendido melhor.
“Todo mundo quer conhecer suas origens. Nós sempre buscamos saber de onde viemos e para onde vamos. No fundo, a pessoa quer descobrir se a raiz dela é boa ou não, qual é o seu pedigree”, explica o psicanalista José Otávio Fagundes, 60, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Deserdados genéticos - Embora atormente, a busca dos inseminados pela herança genética não é exatamente como procurar uma figura paterna. “Eu não conheço pessoas geradas dessa forma que encarem o doador como o seu ‘pai’. Para a maioria, ele é mais um amigo, alguém que ajudou e a quem eles gostariam de encontrar e agradecer”, explica David Towles, um dos diretores do banco de sêmen norte-americano Xytex.
Mais do que isso, o doador é também alguém que guarda parte da chave de sua identidade. “Eles procuram essa pessoa porque têm pouca ou nenhuma informação sobre metade de seus genes. E a maioria inicia a busca quando atinge a idade adulta”, afirma Towles.
A razão, dizem os especialistas, esta associada à maturidade. “A busca passa a ser fundamental assim que o indivíduo começa a procurar sua identidade adulta. A mãe representa o seu lado mais infantil, a dependência. Ele precisa do pai para fazer esse corte, para amadurecer”, explica José Otávio Fagundes.
Não à toa, quando ainda são muito novas, as crianças não ligam para essas questões. “Minha mãe me contou quando eu tinha cinco anos. Na época, não foi um choque, eu era muito pequena”, conta a canadense Olivia. “Quando você é criança, não está nem aí para nada”, confirma a paulistana Maria Candida de Souza, 76, que se insere no tipo mais tradicional de deserdados genéticos, o das crianças abandonadas ao nascer.
Maria Candida foi deixada na Roda dos Enjeitados da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo com dois dias de vida. No início do século 20, a lendária roda, desativada apenas em 1946, era o principal meio de adoção na cidade. As mães depositavam seu bebê no cilindro da rua Dona Viridiana e batiam com força na madeira; as freiras giravam o instrumento e pegavam o recém-nascido. Sigilosamente: ninguém via ninguém.
Maria nunca foi adotada. Até os sete anos, ficou na Santa Casa; depois foi estudar em um orfanato, onde ficou até os 18. Dali, saiu para trabalhar como empregada doméstica no Rio de Janeiro. Até se casar, aos 21, seu nome completo era “Maria Candida”, sem sobrenome algum.