ENSAIO - A Máquina Infernal
Contudo, não se deixe enganar, leitor. O narrador “não-confiável” – aquele se utiliza da ironia, do deboche, da mentira, para ganhar a confiança do leitor – é um instrumento narrativo utilizado desde sempre na Literatura mundial por escritores que, ao desvelar a “mentira” firmada, falam a “verdade”. Exemplar importante é o romance O falso mentiroso10, que toma como forma o paradoxo que afirma ser a literatura um discurso que, ao se dizer mentiroso, ficcional, diz-se verdadeiro. “Como são falsos os romances que só transmitem a continuidade da ação, mas nunca transmitem a descontinuidade da criação”11, já teria testemunhado Eduardo, o narrador tornado personagem em Stella Manhattan – romance de 1985 que, tendo como pano de fundo os anos vividos sob a ditadura militar, marcou toda uma geração –, ao comentar as dificuldades presentes na experiência da criação literária.

Vale acrescentar, entretanto, que a irônia e o deboche, jamais tornados destrutivos na obra de Silviano Santiago, terminam por traçar uma linha divisória entre o “um” e o “outro”, instaurando o limite necessário à possibilidade de conhecimento. Com efeito, seja em Histórias, em Stella, ou mesmo em Uma história em família, romance de 1992 que lhe deu o seu segundo Jabuti, ou ainda em De cócoras12, lançado em 1999, o mote será mesmo o desdobramento de si instrumentalizado por meio de experiências temáticas e formais que lhe permitam “ali voltar a buscar-me para saber”. E, se “o objeto de sua paixão é a história no estado em que se encontrava antes de ser bem contada”13, o “narrar verdadeiro” alcançará êxito por meio de personagens e temáticas que (re)visitam o escritor frequentemente: o menino tornado orfão em face à morte prematura da mãe, o velho moribundo que despede-se da vida escrevendo e reescrevendo interminavelmente as suas memórias, a sexualidade, o corpo, o olhar, a desconstrução-reconstrução de uma memória vital [“Memória/ (de um, de outro e outro mais):/ esse poder anônimo/ sobre mim”14] e a morte.

Em associação ao binômio olhar-ser olhado, a temática de corpos que são instrumentos para a “mútua entrega total como se houvesse possessão contrária o meu corpo não é meu é dele/ o corpo dele não é seu é meu”15, já presente em seu primeiro romance, O olhar, de 1974, e presente de forma exemplar em Stella, reaparece também em Histórias. De fato, a dinâmica assumida pela esposa do professor universitário reacionário, o paraplégico Aníbal, em Stella, que quanto mais se distancia do marido, “mais se aproxima dele, pronta para encontrá-lo no momento em que as suas mãos tocarem o outro corpo [de um desconhecido que a aborda] e, naquele momento, estará tocando o corpo proibido de Aníbal, o corpo resguardado”16, irá explicitar-se em Histórias por meio de um narrador que reafirma: “o gozo sexual está localizado no orgão da visão e não da reprodução. O prazer sexual deriva mais da sucessão dos atos encenados e presenciados e menos da qualidade da única e exaustiva trepada, vivida e suada”17.

Com efeito, constatação que só vem iluminar uma intuição primeira, é bom que se diga ainda: o escritor também não teme a morte. Caso inquietem-nos, contudo, as depressões de seus personagens com suas doses abusivas de Lexotan, eternos estrangeiros vagando por um mundo inóspito, vale resgatar que as experiências temática e formal condensadas em Literatura (com ele maiúsculo), na qual se constitui a obra de Silviano Santiago, serão os instrumentos por meio dos quais o leitor – aquele para quem o escritor deixa a sua obra em testamento – passa a ser dublê de autor, artista, ao construir a realidade de acordo com as leis que eventualmente conheça.

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7 Santiago, Silviano. (1981) Em liberdade. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.
8 Santiago, Silviano. Viagem ao México. Rio de Janeiro, Rocco, 1995b.
9 Cf. Bartucci, Giovanna. (1985) Borges: a realidade da construção. Literatura e psicanálise. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
10 Santiago, Silviano. O falso mentiroso. Rio de Janeiro, Rocco, 2004. Romance que conquistou o segundo lugar na terceira edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, em 2005.
11 Santiago, Silviano. (1985) op. cit., p. 86.
12 Santiago, Silviano. De cócoras. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.
13 Santiago, Silviano. (2005) op. cit.
14 Santigo, Silviano. (1995a) op. cit., p. 43.
15 Santigo, Silviano. (1974) O olhar. Edições Tendência, 1974, p. 25.
16 Santiago, Silviano. (1985) op. cit., p. 197.
17 Santigo, Silviano. (2005) op. cit.