ENSAIO - A Máquina Infernal
“No quarto de hotel/ o outro corpo é alguém./ Na cama em que o deixei/ ali volto a buscar-me/ para saber”3, atesta o poeta que se indagara alhures: “fui olhos que lêem. Sou eco que reproduz o eco do eco”. “Serei prisioneiro das palavras alheias? Pergunto em busca das minhas próprias palavras”4.

De fato, os narradores de Histórias Mal Contadas, seu livro de contos lançado em 2005, também reiteram os grandes temas que absorvem o escritor: “Ao levantar da cortina, disse ao migo de mim”: “o bem narrar, o narrar verdadeiro é uma concessão que faço à consciência e à morte iminente”. E, de pronto, nos alertam ainda: “não quero que minhas histórias mal contadas se transformem em misses do memorialismo tupiniquim. Quero que sejam verdadeiras e não façam feio junto aos críticos especializados, que escrevem resenha de livro nos suplementos literários”.

Mais contundente é a transposição dos ensinamentos de Maria Augusta Nielsen Socila – fundadora da então Socila, bem-sucedida instituição de beleza – para o parágrafo-modelo de suas histórias, agora “bem contadas”. Primeiro exercício transposto, para a frase-modelo da história bem contada: “ela tem de ficar empinhadinha na folha de papel, como longo pescoço de cisne, relinchando com a juventude rebelde de cavalo fogoso”. O fato é que “no mundo altamente competitivo do mercado contemporâneo do livro, frases com boa disposição para atender ou recusar as necessidades e exigências do outro podem fazer a diferença na disputa pelo leitor”5. Afirmação cuja versão ensaística encontra-se desenvolvida pelo crítico e acadêmico, professor aposentado da Univerisidade Federal Fluminense, com atividades docentes no Canadá, nos Estados Unidos e na França, em O cosmopolitismo do pobre6, importante volume de ensaios voltado à crítica literária e à crítica cultural.

Dito de outra forma, o escritor Silviano Santiago é um outro. E ambos não são o mesmo. Concebida, então, como um intercâmbio entre criação e crítica, a obra de Silviano Santiago, escritor mineiro nascido à 29 de setembro de 1936, em Formiga, encontra no diálogo que se estabelece entre seus contos, romances, poemas e ensaios, a experiência formal do desdobramento de si, o “estilo”, ou, ainda, a produção de sentido à uma busca desesperada e trágica de coerência.

Fundamentado em pesquisa e na realidade factual, o falso diário de Graciliano Ramos, Em Liberdade7, por exemplo – romance de 1981 que deu a Silviano Santiago o seu primeiro Prêmio Jabuti –, é biografia, ensaio e romance em forma de ficção. Como também Viagem ao México8, que tem no homem de teatro e cinema, poeta e escritor, Antonin Artaud, o narrador e personagem desse romance de 1995. E, não à toa, Danuza Leão, Maria Bethânia, Gal Costa, Ilka Soares, Emilinha Borba e Marlene, Lupiscínio Rodrigues, as cidades de Formiga, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Paris, Albuquerque, com as quais o escritor tem uma relação de proximidade, ou mesmo as universidadades na qual lecionou, como a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, são referências em Histórias. Ao colocar em cena, por meio da intrusão do real em estilo documentário, elementos de sua própria vida, utilizada aqui como trampolim para arremessar seus leitores num mundo de ficção, Silviano Santiago, assim como o fez Borges, estará problematizando a concepção de literatura na contemporaneidade, ao confundir os limites entre os mundos “real” e ficcional, entre realidade e ficção9.
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2 Bartucci, Giovanna. (1999) Entre o mesmo e o duplo, inscreve-se a alteridade. Psicanálise freudiana e escritura borgiana. In: Bartucci, Giovanna. Fragilidade absoluta. São Paulo, Planeta, 2006, pp. 135-157.
3 Santiago, Silviano. Cheiro forte. Rio de Janeiro, Rocco, 1995a, p. 19.
4 Santiago, Silviano. Uma história de família. Rio de Janeiro, Rocco, 1992, p. 96.
5 Santiago, Silviano. Histórias mal contadas. Rio de Janeiro, Rocco, 2005.
6 Santiago, Silviano. O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004.