ENSAIO - A Máquina Infernal
A MÁQUINA INFERNAL

Com Histórias mal contadas, Silviano Santiago reforça
em sua obra
os laços entre a criação e a crítica

Publicado na revista CULT - Ano VIII - n° 93 - Págs. 36-39
Julho de 2005

Giovanna Bartucci


Foto: Ângelo A. Duarte
Pensávamos ter sido Buenos Aires a cidade quando, por uma obra do acaso, constatamos que a placa rezava “Formiga”, cidade pertencente ao estado de Minas Gerais, neste país chamado Brasil. Verdade seja dita, se não estávamos certos de nossa localização, tampouco poderíamos informar os leitores a data exata: teria sido aquele o ano de 1899, ou talvez o de 1936. Quem sabe o ano de 2005? O mês, agosto, ou estaríamos em setembro? Abril, talvez? Uma coisa era certa, 24 de agosto era a data que atestava o seu nascimento. O mais difícil, contudo, foi decifrar o nome grifado na certidão à maneira de um rabisco, uma vez adentrado o cartório de registros: Onaivlis Ogaitnas. De fato, ainda que nada compreendêssemos, parecia-nos algo familiar.

Determinados, então, a dar continuidade à nossa investigação, começamos a folhear as pastas largadas a esmo na sala loteada por arquivos de metal. A procura por alguma outra pista que pudesse nos revelar a identidade do escritor das páginas que trazíamos conosco, era o motor de nossa busca.

Abatidos, o silêncio agora sibilava em nossos ouvidos, na sala um tanto fria do cartório de registros. Sim, uma vez mais, nada encontrávamos. Cansados, afinal saímos à rua. Sem trocar palavras, sentamo-nos no parapeito da calçada. Desejosos de balançar as pernas, como a ver a banda passar, crianças sob o sol escaldante, finalmente fez-se a luz. Como não haveria de ser? – perguntamo-nos um tanto quanto eufóricos com a revelação. Aquelas letras nos teriam sido deixadas por Silviano Santiago, conterrâneo de Jorge Luis Borges, escritor mineiro nascido na cidade portenha, à 29 de setembro do ano de 1936, a sua Buenos Aires querida já em flor.

***

É claro que o leitor logo perceberá que o pequeno texto acima – que de tão curto evito incluí-lo na categoria “conto”, preferindo concebê-lo como uma “esquete” – brinca com os conceitos de tempo, espaço, com o tema da identidade e seus desdobramentos. Tal qual uma pintura ou uma escultura – ao nos arremessar à lugares inesperados –, uma esquete também deverá nos solicitar a produção de sentido à experiência literária vivida.

É verdade, o desejo de encontrar um gênero de escrita que transmita ao leitor a experiência literária que a obra de Silviano Santiago provoca transmudou-se em uma homenagem singela a um autor cuja escritura condensa “uma busca desesperada e trágica de coerência”, síntese que muitos de seus personagens viriam a denominar “estilo”1, que se constitui por meio de um diálogo permanente entre narradores-que-são-outros e personagens submetidos ao desejo-em-obra.

Assim, se a obra de Jorge Luis Borges, escritor portenho nascido à 24 de agosto de 1899, tem no jogo de espelhos – aqui concebido como um movimento constitutivo cuja função é a de apropriar-se de si mesmo continuamente, ora observando-se a si mesmo, ora a seu duplo2 – o instrumento instaurador do universo borgiano, a obra de Silviano Santiago encontra na experiência temática do desdobramento de si a realização de seu projeto artístico, uma “busca de coerência” desesperada e trágica uma vez que é impossível nos subtrairmos ao desejo, matéria da qual somos feitos.
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1 Santiago, Silviano. (1985) Stella Manhattan. Rio de Janeiro, Rocco, 1999, p. 213.