Zona de transição
Retornemos ao artigo de Castello, que condensa as questões em pauta. O autor sugere que os escritores da “nova geração” vêm firmando-se numa “zona de transição, em que as classificações se tornam escorregadias e as reputações se formam mais por dissonância e atrito do que por semelhança e adesão”. Vale resgatarmos, contudo, que fenômenos culturais constituídos por meio de dissonâncias e atritos são, na verdade, o verso ou reverso de fenômenos instaurados por meio de relações de adesão e semelhança, implicando identificações e diferenciações. Assim, sou levada a considerar que a “geração de escritores” à qual Castello se refere, ao contrário, porta um estilo em sintonia com seu tempo – o “estilo-de-não-ter-estilo”. Temos aqui, então, uma questão fundamental: a necessidade de constituição de uma “identidade geracional”. De qualquer forma, “sem-estilo” ou com o “estilo-de-não-ter-estilo”, ainda que a diversidade atue como antídoto, a homogeneização de uma dinâmica cultural tende a constituir uma identidade e, na origem, ocultar transgressões.
A obra da gaúcha Cíntia Moscovich exemplifica a questão em pauta. Nascida em 1958, a jornalista é hoje uma de nossas grandes ficcionista. Contista de primera linha, maestrina cuja batuta é capaz de orquestrar ficções nas quais têm lugar maiorias e minorias, características regionais e cosmopolitas, suas linhas conduzem um estilo singular. Ao abordar o tema do homoerotismo, a escritora consegue ainda algo raro na ficção contemporânea: falar do amor entre “dois iguais” por meio de uma literatura em nada panfletária. Sem se utilizar do deboche ou cinismo – respostas possíveis em face à discriminação –, Duas Iguais, narrativa amorosa de uma vida interrompida, não trata de uma experiência de luto, mas de uma perda intermitente. Se Moscovich é autora, então, de pequenas transgressões temáticas, Manoel Ricardo de Lima também o é em relação à linguagem. Autor de As mãos, suas transgressões residem na construção deliberada, por meio da linguagem, de um espaço de transição – um “vivido-sendo-tempo” – onde a escrita, em sua relação com o tato e o olhar, se constitui como lugar de transporte.
É verdade, pequenas transgressões são capazes de transformar movimentos geracionais em movimentos estéticos de idéias. Contudo, uma vez que a necessidade de constituição de uma “identidade” parece estar presente no bojo da cultura, a pergunta que se segue deverá ser: quem é o leitor de ficção dos anos 1990? Se a censura
4 se constituiu em “musa inspiradora”, como relata Geraldo Carneiro, ao acompanhar a produção dos anos 1970 – os romances-reportagem, parábolas, narrativas fantásticas, a referencialidade biográfica dos depoimentos e memórias –, postada ao lado da máquina de escrever, na construção de Flora Süssekind, qual seria, afinal, o centro organizador da ficção contemporânea? Escreve-se para quem?
Morador de Capão Redondo, Ferréz responde: “escrevo para os manos”
5. Com efeito, ainda que o registro in natura do violento cotidiano urbano no qual o risco de aniquilamento permanente também seja característico da prosa de Edyr Augusto, as obras de Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Paulo Lins, muitas adaptadas para o cinema, já teriam registrado o diálogo entre o documental e o ficcional por meio do esgarçamento das tensões sociais existentes. O que a literatura de Ferréz faz, contudo, ao re-apresentar o mundo das “quebradas das vielas da periferia paulista” por meio de material autobiográfico e de uma linguagem oral, de gueto, é oferecer aos manos algo que tenha “a sua cara”. Também Daniel Frazão, oriundo de uma classe média intelectualizada, escreve para os “manos”. O implacável Cerco narra o assassinato de vizinhos, professores, pais, num domingo de sol, na pacata São Felipe, por aqueles que a própria cidade gerou. Por que razão? Porque sim.
Se em suas origens, então, o romance trouxe para o “suporte” livro emoções cotidanas com as quais os leitores poderiam se identificar, democratizando e popularizando a leitura, o testemunho ou a linguagem direta atuantes na literatura contemporânea parecem ter, sim, uma função identitária. Função que, ao delimitar espaços urbanos, psíquicos, morais, éticos, mais do que oferecer representações com as quais os leitores possam se identificar, ao contrário, comunica ao mundo a sua existência, ao circunscrevê-los. O fato é que, com algumas exceções, a literatura contemporânea não desorganiza a realidade, não desvela subjetividades mas promove o sentimento de pertencimento ao constituir identidades
6. Nesse sentido, corresponde, no âmbito da cultura, ao que Oliveira parece experimentar enquanto organizador das antologias Geração 90.
Mas a questão é que caso consideremos, como Eric Hobsbawm
7, a desconstrução dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas um dos fenômenos mais característicos do final do século 20, parece-me fundamental sermos capazes de sustentar a ausência de homogeneização em face à fragmentação. Trata-se do tempo necessário para “‘vomitar’ os excessos a fim de avaliarmos o que de fato queremos redeglutir”, sugere Michel Melamed, em Regurgitofagia. Somente assim, angustiados porém integros, firmes porém flexíveis – fortes, afinal –, poderemos, tendo o tempo como o nosso único aliado, enfrentar as décadas que nos esperam, no percurso desconhecido que é o de reinscrever a própria herança de forma inovadora.
4 Cf. Süssekind, Flora. (1985)
Literatura e vida literária. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004, 2ª edição revista.
5 Cf. Lajolo, Marisa.
Como e por que ler o romance brasileiro. Rio de Janeiro, Objetiva, 2004.
6 Vale observar, contudo, que, no que se refere aos autores oriundos dos blogs da Web, a dinâmica que se estabelece – ainda que por meio de instrumentos distintos – também busca constituir uma identidade.
7 Cf. Hobsbawm, Eric. (1994)
Era dos extremos. O breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Cia. Das letras, 1995.