ENSAIO - Trama De Gerações
Com efeito, as tramas que margeiam o eterno desmembramento de si são o traço característico da prosa de Carvalho, a prosa lírica da de Carrascoza, a prosa espiralar – característica dos espaços interiores – é partilhada por Ajenberg, Carrascoza, Pires, Resende, e também por Nazarian, ainda que o escritor lance mão de períodos curtos. A prosa poética, imagética, é característica de Adriana Lisboa e Lunardi. Assim como Milton Hatoum, Lisboa, uma de nossas mais proeminentes romancistas, é capaz de uma construção lenta e gradual do espaço imaginário a ser compartilhado com o leitor. Se, para Hatoum, a memória é – junto aos seus personagens de origem libanesa, em sua Manaus natal – um instrumento de resgate, para Lisboa, “a alma (de seus personagens) vem vindo, aos poucos, de muito longe”. De fato, a poesia e a delicadeza de sua prosa são os seus instrumentos mais poderosos, será contudo por meio da memória – aqui, meio de transporte – que personagens, história e ficção, serão constituídos.

O humor, instrumento que expressa com clareza uma disposição de espírito, também está presente em nossa prosa de ficção. Seja por meio de um texto ágil cujos cortes precisos produzem efeitos de humor, ou de personagens imersos em uma trama inusitada cuja complexificação do universo ficcional os aproxima do sublime, como em Adriana Falcão e Claudia Tajes, ou ainda de uma sofisticação narrativa cuja construção em dois níveis, um manifesto e o outro latente, sintetiza por meio do humor e da ironia – de um olhar tragicômico – as nossas angústias mais profundas, como na ficção de Marilia Pacheco Fiorillo, o tema em pauta será a condição contemporânea.

Contudo, de uma perspectiva que reflita a atualidade, se as diversidades temática e formal podem ser consideras o retrato da fragmentação em face à qual se encontra a contemporaneidade, a rápida absorção da rubrica “Geração 90” por seus diferentes interlocutores indicaria aceitação, reconhecimento de um grupo constituído? Vejamos.

Em janeiro de 2003, José Castello publica um artigo2 na revista Bravo! no qual sugere que a “nova geração de escritores brasileiros” compartilha uma grande dificuldade de “pertencer”, não só a uma filiação mas também a um estilo, ou a uma identidade, apostando solitariamente na aventura da escrita. Caso acompanhemos Castello em seu raciocínio, no entanto, a rejeição3 (publica) de tal classificação por Carvalho, Luiz Ruffato e Hatoum, escritores consagrados e com estilos diferenciados, automaticamente os incluiria nesse recorte. Mas o fato é que se o Modernismo foi um movimento estético de idéias que se tornou fator de renovação na história da literatura brasileira, o desconforto assinalado pelos escritores acentua-se ao constatarmos que a rubrica “Geração 90” explicita uma dinâmica auto-referencial. Em Manuscritos, Oliveira expõe o desejo de mapear suas “origens, o encontro com os irmãos de sangue e de ringue que eu só conhecia de fama – todos faixa-preta do boxe”.

É verdade, alguns de nós partilhamos do sentimento de profunda familiaridade que se produz também na ausência de consangüinidade. Serão laços éticos e de amizade que unirão os envolvidos, constituindo relações por vezes mais significativas que as consangüíneas. Por que, então, a necessidade de submeter a ligação com “os irmãos de sangue e de ringue” a uma rubrica? Na medida que um movimento geracional é distinto de um movimento estético de idéias, a rubrica “nova (+) geração (+) escritores brasileiros” transforma-se em um “mal-estar” que, em última instância, reafirma a rubrica mesma em um processo circular sem fim, como constatamos.

Epígrafe utilizada por Bernardo Ajzenberg em seu Gaiola de Faraday, o poema de Fabríco Carpinejar também parece condensar o caminho percorrido por Adriana Lunardi, Ajzenberg, Bernardo Carvalho, Michel Laub, Nilza Resende, Paulo Roberto Pires, Santiago Nazarian, e parcialmente por João Carrascoza. Com enredos que circunscrevem espaços ficcionais distintos, a vida psíquica conflituosa, as angústias que frequentam o cotidiano e determinam o comportamento humano e consequentemente o “estado das coisas”, serão os mares pelos quais navegam estes autores. Solidão, morte e imortalidade; angústias do cotiano de uma classe média esvaziada, caos; enfrentamento permanente com o seu duplo metonímico; personagens movidos por um sentimento de culpa intransponível, imersos em relações triangulares cujas tramas devem ser ultrapassadas para que seus protagonistas vivam em liberdade; amor, corpos que habitam casamentos esvaziados, ainda o amor; ausência, perda, reconstrução; rastros, violência e morte; dias raros em vidas rotineiras, são temas que, por meio de uma narrativa anti-realista, nos livrarão do excesso de estarmos onde não estamos.
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2 Castello, José. (2003) Dissonância e atrito. São Paulo, Bravo!, ano 6, janeiro 2003, págs. 74-79.
3 Machado, Cassiano Elek. (2003) A literatura brasileira dividida por quatro. Caderno “Ilustrada”, Folha de S. Paulo, 26 de julho de 2003.