TRAMA DE GERAÇÕES
Com soluções distintas, caminham a prosa e a poesia brasileiras
Publicado no caderno IDÉIAS - Jornal do Brasil - Págs. 01-02
30 de abril de 2005
Giovanna Bartucci
"Um herdeiro não é apenas alguém que recebe,
é alguém que escolhe, e que se empenha em decidir
1."
Jacques Derrida
Genealogia, ascedência, descendência, conjunto de pessoas que têm aproximadamente a mesma idade, espaço de tempo correspondente ao intervalo que separa cada um dos graus de uma filiação avaliados em cerca de 20 anos – todos estes significados compõem a nossa compreensão do vocábulo “geração”. A idéia de geração traz também em seu bojo a presença de fases sucessivas que assinalariam uma mudança no comportamento humano, ou mesmo em uma técnica decisiva. Tal condição de mudança, contudo, é marcada por uma característica específica: implica em o sujeito criar um dispositivo para si que o permita incorporar seus antepassados de modo a estabelecer um diálogo criador com – no caso em pauta – a sua própria escritura. Assim, um herdeiro é alguém que aceita a sua herança, mantendo-a viva ao relançá-la de outra maneira. Vale lembrar também que aquele que transgride não apenas desobedece a uma regra. Ele vai aonde outros não estão, conhece algo que outros não conhecem. Um herdeiro é, afinal, alguém que, ao percorrer o desconhecido, reinscreve a própria herança de forma inovadora.
Lançada em 2001, a coletânea de contos Geração 90 – Manuscritos de computador, organizada por Nelson de Oliveira, reuniu diferentes autores até então dispersos pelo país, ao mapear a produção literária brasileira “dos contistas (e romancistas) que estrearam e se firmaram na última década do século 20”. À primeira, seguiu-se a segunda antologia, Os transgressores, em 2003. E, de fato, se a sua iniciativa reanimou os debates em torno da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas – conversas que hoje espraiam-se à crítica literária –, tais debates estimularam também o surgimento de selos editoriais que vêm divulgar a literatura em prosa desde ficcionistas estreantes, brasileiros e estrangeiros, à traduções de autores clássicos. No entanto, ao sugerir que os escritores então reunidos “aprenderam com os mestres da Geração 70 – José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna, João Antônio, Roberto Drummond – a desdenhar os caminhos já abertos, e abriram, por sua conta e risco, as próprias picadas”, Oliveira reacendeu questões que aludem tanto à (im)possibilidade de se ser um escritor original no século 21, quanto à função da literatura e da escrita na contemporaneidade. Tendo sido recebidos por muitos, contudo, como lançamentos que apenas “buscavam visibilidade e espaço no mercado”, entendo que reduzir a questão ao que ela tem de manisfesto seria perder a oportunidade de avançarmos um pouco em nossas reflexões sobre o contemporâneo, uma vez que a idéia de originalidade está diretamente relecionada à condição transgressiva de cada autor.
Com efeito, Oliveira selecionou escritores que, a seu ver, publicaram o que de melhor se leu no final do século 20. Ainda assim, a minha leitura incluirá autores que considero pertencer ao mesmo recorte temporal. Sem pretender uma disposição exaustiva, sem discutir todos os autores selecionados pelo organizador, e dando destaque a outros, é importante que possamos circunscrever as características da prosa de ficção dos anos 1990 e inícios dos anos 2000 para que possamos seguir adiante.
Assim, se o que há em comum entre estes escritores talvez seja a presença de um exterior/ interior fragmentado, em face ao qual se posta a contemporaneidade, distintas são as soluções encontradas para o convívio partilhável. O cinismo, a agressividade, a pornografia, o desprezo pelo gênero humano, por si próprio, são encontrados em diferentes graus na literatura de Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Nilo de Oliveira, a escrita fragmentária vindo retratar a violência exterior/ interior à qual seus personagens estão submetidos. “Através de uma aquiescência cínica e vingativa talvez eu possa inocular toda essa babaquice e remoê-la mansamente”: “Queria me destruir mais rápido. Mas não dá. O que consigo é me curar de um vício no outro”, clarifica o narrador de Bangalô, de Marcelo Mirisola. Ainda assim – quem sabe? –, “chega de seguir/ vendados pelas mãos/ macias da neblina./ Descobri tarde:/ Tua única residência/ é distanciar-se da casa./ Desembaraça-me/ do excesso/ de estar/ onde não estou”.
1 Derrida, Jacques; Roudinesco, Elisabeth. (2001)
De que amanhã... Diálogo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004, pág. 17.