ENSAIO - Sublimação E Processos De Subjetivação
Assim, se em “Escritores Criativos e Devaneio”(1908 [1907]), Freud compreende a obra de arte como um substituto do que foi o brincar infantil, uma vez que aproxima o artista, aqui o escritor criativo, da criança que, ao brincar cria um mundo próprio reajustando seus elementos de uma forma que lhe agrade, mantendo, com isso, uma nítida separação entre seu mundo de fantasia e a realidade, será a partir das transformações sofridas pelo conceito freudiano de sublimação que tal formulação é passível de alteração.

No entanto, recordemos que a partir da publicação de “Além do princípio do prazer”, ensaio de 1920 que termina por estabelecer o já tão conhecido dualismo entre pulsões de vida e pulsões de morte, será essa mesma pulsão de morte, uma vez que não se articula no registro da linguagem, que imporá ao sujeito a necessidade de inscrição no registro da simbolização. Se em sua versão inicial, a sublimação é uma experiência de espiritualização, de ascese, por meio da qual a subjetividade é purificada de seu erotismo perturbador, em sua versão posterior, de 1932, será a mudança de objeto da pulsão o atributo fundamental na reordenação do circuito pulsional. Nessa medida, se face a premência e necessidade em produzir novos objetos para os circuitos pulsionais, o sujeito realiza rupturas no campo de objetos e símbolos, na visão de mundo constituída, será exatamente isto que permitirá ao sujeito constituir, construir sua própria realidade de acordo com as leis que eventualmente conheça. Compreender ou dar significado ao mundo em que vivemos será o mesmo que estruturar a realidade de um modo pessoal e estilizado. 

É verdade, tal concepção apóia-se na formulação de que, ao tomarmos como fundamental o conceito freudiano de pulsão, o psiquismo e o sujeito do inconsciente serão destinos de pulsões, privilegiados, por certo, ao lado do “retorno sobre o próprio corpo”, da “transformação da atividade em passividade” e da “sublimação”, desde que as pulsões sejam consideradas no registro da força como exigência de trabalho. Assim, a pulsão é uma força (Drang) que necessita ser submetida a um trabalho de ligação e simbolização para que possa se inscrever no psiquismo propriamente dito. Daí a relevância da experiência artística: ao mesmo tempo que as coisas são inalcansáveis pela arte, institui-se um lugar onde não só intensidade e excesso pulsionais têm a possibilidade de se fazer presente, como há, também, fundamentalmente, a possibilidade de, por meio da criação artística, estruturar, sim, a realidade de modo pessoal e estilizado, constituindo destinos possíveis para as forças pulsionais, ordenando circuitos e inscrevendo a pulsão no registro da simbolização.

Sem dúvida, a concepção do sujeito do inconsciente como destino de pulsões, desde que entendidas no registro da força como exigência de trabalho, será o que irá possibilitar que pensemos o ato da criação como criação de um sujeito, como “lugar psíquico de constituição de subjetividade”.2

É nessa medida que, tanto a experiência psicanalítica concebida como lugar psíquico de constituição de subjetividade – fundamentalmente para aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável –, quanto a arte, encontram na inscrição da pulsão no registro da simbolização e sua reordenação do circuito pulsional uma economia outra que possiblite o trabalho de criação, de produção de sentido e de ligação.

Por certo, muitos não concordarão, mas não me parece que o psicanalista seja artista, tampouco o artista é psicanalista (e porque não?), mas ambos compartilham de algo que, por hora, entendemos como um “lugar”. Assim, a experiência psicanalítica é, também, um lugar que pressupõe necessariamente um outro que escute, que interprete, que silencie; um outro que, para além de “suposto-saber”, seja ele mesmo este lugar, encarne este lugar, para que no momento que nele, lugar, adentremos, deixe ele mesmo de ser este corpo, para estar este lugar. O jogo de palavras não é artifício retórico, mas a tentativa de recolher, dar forma e instaurar um sentido para este tempo, que para além (ou aquém) da linguagem, é ele mesmo um tempo necessário. Um tempo que permite a emergência de um sujeito a partir desse corte, dessa fenda, desse rombo, dessa cratera, dessa violência amorosa e necessária que nós humanos, por isso mesmo, mui educadamente denominamos falta. Assim é que tanto a experiência psicanalítica, concebida aqui como lugar psíquico de constituição de subjetividade – fundamentalmente para aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável –, quanto a arte, encontram na inscrição da pulsão no registro da simbolização e sua reordenação do circuito pulsional uma economia outra que possiblite o trabalho de criação, de produção de sentido e de ligação.
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2 Cf. Bartucci, Giovanna. Psicanalítica freudiana, escritura borgeana: espaço de constituição de subjetividade. In: Cid, Marcelo; Montoto, Claudio César. Borges Centenário. São Paulo, EDUC, 1999, pp. 125-143. Os ensaios Transferência, compulsão à repetição e pulsão de morte, Percurso, Revista de psicanálise. São Paulo, 21(2), 1998, pp. 43- 49, e Entre o mesmo e duplo, inscreve-se a alteridade. Percurso, Revista de Psicanálise. São Paulo, 22(1), 1999, pp. 49-57 pertencem a mesma linha de pesquisa.