SUBLIMAÇÃO E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO:
ENTRE A PSICANÁLISE E A ARTE1
Publicado na revista online COMCIÊNCIA.BR
Dossiê comemorativo “100 Anos da Interpretação dos Sonhos”
10 de outubro de 2000
Giovanna Bartucci
É verdade, esta é uma época em que se discute, incansavelmente e de forma generalizada, questões cruciais acerca das novas formas de subjetivação na atualidade. Do lado da psicanálise, época originada nos desenvolvimentos exigidos pelo trabalho dos primeiros psicanalistas com pacientes psicóticos e
borderline. Nesse sentido, uma época produtora de autores pós-freudianos que constituiram teorias sobre a origem da atividade de produção de sentido, de ligação, colocando a questão da constituição do Eu a partir da relação com o Outro, definitivamente na esteira dos textos freudianos da década de 20, em seu bojo.
Assim é que, nas últimas décadas temos podido constatar que a fragmentação da subjetividade ocupa posição fundamental na nova configuração do social constituída no Ocidente. O eu, no entanto, encontra-se situado em posição privilegiada, posição essa inédita nas novas formas de construção da subjetividade, caso consideremos a tradição ocidental do individualismo iniciada no século XVII, uma vez que a subjetividade construída nos primordios da modernidade tinha as noções de interioridade e reflexão sobre si mesma como eixos constitutivos. Entretanto, o que agora está em pauta é uma leitura da subjetividade em que o autocentramento se conjuga ao valor da exterioridade. Talvez seja mesmo importante que repensemos os fundamentos de nossa leitura da subjetividade atentando para os “destinos do desejo” na atualidade, como sugerem alguns autores, na medida que tais destinos nos permitiriam captar o que se passa nas subjetividades. Se os destinos do desejo assumem uma direção marcadamente auto-centrada e exibicionista, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas, não será difícil compreender que o que caracteriza a subjetividade na cultura do narcisismo parece ser mesmo a impossibilidade de receber e reconhecer o outro em sua diferença radical. Se por um lado o sujeito na cultura do narcisismo encerra o outro como objeto para seu usufruto, por outro, as experiências de perda e o reconhecimento da incompletude do sujeito têm a possibilidade de abrir caminho para a subjetivação permanente, para a alteridade e temporalidade e, consequentemente, para um futuro que tenha sentido.
No entanto, enquanto também constatamos certo mal-estar na e da psicanálise na atualidade, enquanto o roteiro clássico do Édipo – a criança que deseja o pai do sexo oposto e se identifica com aquele de seu próprio sexo – entra em crise, nunca se revelou tão verdadeira uma das descobertas mais fundamentais da psicanálise, o caráter não adaptativo da sexualidade humana. É nessa medida que o reconhecimento de que nenhuma teoria vai além das próprias delimitações que traz consigo desde suas origens, diz respeito a possibilidade de recomposição do tecido teórico como um conjunto, permitindo, assim, as condições futuras.
Assim é que as questões relativas a intensidade e excesso pulsional são fundamentais. Não só se apresentam como características marcantes dos sofrimentos na atualidade, mas tomado pela intensidade e pelo excesso, ao sujeito só lhe resta realizar um trabalho de ligação constituindo destinos possíveis para as forças pulsionais, ordenando circuitos pulsionais e inscrevendo a pulsão no registro da simbolização. Frente à reativação do desprazer, produzido por grandes quantidades não metabolizáveis pelo psiquismo, será a capacidade de ligação do aparelho psíquico que definirá as possibilidades de domínio desta energia.
É neste contexto que o conceito de sublimação tem importância fundamental. Recordemos que por sublimação entende-se a capacidade do sujeito de investir em atividades artísticas, intelectuais, ideológicas, científicas, atividades denominadas por Freud de “atividades superiores”, uma vez que desta forma laços sociais são estabelecidos e fortalecidos, empregando energias que, do contrário, inviabilizariam a vida em sociedade. Compreendido como um processo que consiste em a pulsão se lançar a uma meta outra, distante da satisfação sexual propriamente dita, a enfase recai sobre o desvio em relação ao sexual; ou seja, pressupõe-se a manutenção do objeto da pulsão, havendo, no entanto, a transformação do alvo. A sublimação seria o que permitiria a constituição de uma dialética da alteridade por meio da inscrição da pulsão no campo da cultura. A arte seria, assim, uma modalidade de sublimação às pulsões, na qual o sujeito manteria o objeto de investimento, transformando seu alvo.
1 Este artigo é uma versão ampliada e modificada de Bartucci, Giovanna. (2000) Psicanálise e Estéticas de Subjetivação. In: Bartucci, Giovanna (org.). Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2000, pp. 13-17.