ENSAIO - Freud Contemporâneo
Por outro lado, entretanto, talvez possamos considerar que enquanto constatamos tal mal-estar na atualidade, nunca se revelou tão verdadeira uma das descobertas mais importantes da psicanálise: o caráter não adaptativo da sexualidade humana. Assim é que, em face a este momento de exacerbação da autoconstituição, ao constatarmos a diminuição acelerada da experiência de interiorização pelo sujeito contemporâneo, ou, ainda, o esvaecimento dos limites entre interioridade e exterioridade, a atribuição de uma função estrutural à inovação estética e ao experimentalismo torna-se cada vez mais essencial.
Vale lembrar então que o desejo é “inconsciente” na medida em que atesta “uma falta fundamental”, ao testemunhar o afastamento que se estabelece entre necessidade e demanda; e “Édipo”, uma “estrutura” que ordena o desejo. Contudo, como também sugerem outros autores, se o que há de característico no estabelecimento das condições de constituição psíquica dos sujeitos é o fato de que todas as culturas exercem algum tipo de interdição no que se refere à apropriação, por parte do adulto, do corpo da criança como objeto de gozo, tal concepção de “complexo de Édipo” só vem reafirmar afinal a importância da presença de um operador simbólico que ordene uma função estruturante.
Assim, se a experiência psicanalítica desdobra-se ao longo de um trabalho elaborativo que opera uma transformação da subjetividade, insistir na experiência da perda, da falta, da castração simbólica como condição de desejo e de prazer, implica – na contemporaneidade – um trabalho anterior: o de constituir limites entre interioridade e exterioridade, entre o eu e o outro, condição indispensável para que a liberdade psíquica do sujeito ocorra.
Não à toa, experimentar, aqui, implica pôr à prova, ensaiar, empreender, executar, praticar, sentir, sofrer, suportar e, finalmente, adquirir experiência. Trata-se, afinal, de nos indagarmos acerca do que somos capazes de construir, criar, dado este momento de exacerbação da autoconstituição, este lugar-limite no qual nos encontramos e cujo esvaecimento dos limites entre interioridade e exterioridade – temos que reconhecer – nos possibilita esta condição de simultaneidade que constitui o cerne da experiência psicanalítica. Experiência esta que, na contemporaneidade, é constitutiva dos sujeitos.