ENSAIO - Freud Contemporâneo
FREUD CONTEMPORÂNEO
CONCEITOS REVELAM UM HOMEM A FRENTE DE SEU TEMPO


Experiência psicanalítica antecipou a contemporaneidade ao diluir as fronteiras entre sujeito e objeto

Publicado no caderno Cultura - O Estado de São Paulo - Pág. D8
Especial FREUD, 150 ANOS
07 de maio de 2006

Giovanna Bartucci

Sigmund Freud (1856-1939) esteve à frente de seu tempo. Antecipou a contemporaneidade ao diluir as fronteiras entre “sujeito” e “objeto”. E é essa condição de simultaneidade o que constitui a vitalidade existente no cerne da experiência psicanalítica, ao possibilitar um trabalho de criação, de produção de sentido.  

Em outubro de 1897, Freud escrevia para Wilhem Fliess (1858-1928), com quem se correspondeu por mais de uma década, compartilhando suas experiências inicias: “Descobri, também em meu próprio caso, o fenômeno de me apaixonar por mamãe e ter ciúme de papai, e agora o considero um acontecimento (...) do início da infância”. Ao mencionar Édipo Rei 1, pela primeira vez, Freud atesta que “a lenda grega capta uma compulsão que todos reconhecem, pois cada um pressente sua existência em si mesmo. Cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada uma recua, horrorizada, diante da realização de sonho ali transplantada para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual” 2.

Configuração edípica que remete à subjetividade construída nos primórdios da modernidade, é possível reconhecermos aqui que o “homem freudiano moderno” nasce no momento mesmo em que nasce também o “homem trágico”, aquele que, culpado por seus desejos, internaliza a proibição ao incesto no momento em que renuncia ao mesmo. A teoria do psiquismo inconsciente, cujas noções de realidade psíquica e sexualidade infantil abrigam as noções de desejo inconsciente e fantasmas conexos, sendo contemporânea, então, das noções de interioridade e reflexão sobre si, é eixo constitutivo dos sujeitos na era moderna.

Se a modernidade trouxe para cada sujeito a tarefa intransferível de autoconstituição, o que a pós-modernidade fez, no entanto, foi tornar esta tarefa excessiva. Compreendida, como sugere Fredric Jameson3, como um momento no qual o imaginário e a intimidade foram incorporados ao universo das mercadorias, dando lugar à experiência de um “eu jamais acabado”, como sugere Richard Sennett4, a reclamação de base, então, parece ser a de que a psicanálise, obsoleta, teria se tornado inoperante, na contemporaneidade. Ou seja, na medida em que a condição de possibilidade para a emergência do inconsciente pauta-se na desconstrução da “história oficial” do sujeito, a psicanálise teria entrado em crise ao contrapor-se aos pressupostos éticos pós-modernos.

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1 Cf. Sófocles. (c. 425) A trilogia tebana. Édipo Rei. Édipo em Colona. Antígona. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
2 Freud, Sigmund. Carta 71. 15 de outubro de 1897. In: Masson, Jeffrey Moussaieff (org.). (1985) A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess. 1887-1904. Rio de Janeiro, Imago, 1986, p. 273.
3 Cf. Jameson, Fredric. (1991) Pós-Modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Ática, 2002; (1994) As sementes do tempo. São Paulo, Ática, 1997
4 Cf. Sennett, Richard. (1974) O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. São Paulo, Cia. Das Letras, 1988; (1980) Autoridade. Rio de Janeiro, Record, 2001; (1988) A corrosão do caráter. Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro, Record, 2001.