ENSAIO - O Divã Na Tv

É nessa medida que o que parece estar em pauta, na atualidade, são configurações subjetivas nas quais o auto-centramento se conjuga ao valor da exterioridade. Ter, aqui, é ser. Ter objetos, usufruí-los, proporcionaria a satisfação almejada e implicaria ser reconhecido como imagem por um outro que também o é, situando o sujeito numa determinada definição identitária. No entanto, se para cada “ato exibicionista” é necessário um “ato voyeurista”, espera-se tudo do objeto e nada do sujeito. A tentativa de esvanecer os limites entre interioridade e exterioridade, entre ficção e realidade indica a necessidade de permanência deste círculo vicioso no qual a ilusão de plenitude é dada a partir da manutenção do outro-telespectador no lugar de voyeur. Assim, se o que seduz não é necessariamente o conteúdo dos programas, tal ato voyeurista significaria o reconhecimento deste outro-exibicionista, e tem como função libidinizar esta audiência anônima, genuinamente ávida por reconhecimento.

Com efeito, foi o conceito de pulsão escópica que permitiu à psicanálise restituir uma atividade para o olho como fonte de libido – e não mais como fonte de visão –, uma vez que o escopismo é constituinte da própria libido, do próprio desejo5.

Não à toa, Freud entende que o binômio “olhar e ser-olhado” é um binômio que não se separa. Se o exibicionismo implica olhar para o próprio corpo por meio da partilha da fruição da visão de sua própria exibição, por meio de um processo de identificação com “uma pessoa estranha”, constatamos, afinal, que “olhar e ser-olhado” estão simultaneamente sempre presentes, constituindo a pulsão escópica. Assim, não há fase escópica do desenvolvimento libidinal, ou seja, não sendo da ordem da necessidade, a pulsão escópica não se ancora em nehuma função fisiológica, como, por exemplo, a pulsão oral – a criança que pede o seio à mãe –, ou mesmo a pulsão anal – a mãe que pede as fezes à criança.

Ainda, se a psicanálise tem como postulado fundamental a idéia de que o objeto que deveria ter, um dia, miticamente trazido uma primeira satisfação está perdido para sempre – o que também implica a idéia da impossibilidade de satisfação completa da pulsão –, os objetos que a pulsão encontra para se satisfazer, tais como o seio, o dedo, a chupeta serão sempre objetos substitutos.

É nessa medida que, no que diz respeito a pulsão escópica, será o olhar que o sujeito teria um dia miticamente encontrado e logo perdido – o olhar da mãe – que o fará partir em sua busca. É exatamente pelo fato de que o olhar é um dos suportes do desejo do Outro que o sujeito é afetado pelo olhar enquanto objeto de desejo do outro.

Poderíamos ainda considerar que se o escopismo constitui-se como o paradigma da pulsão sexual – é constituinte do próprio desejo –, a atividade sexual de “ver” é derivada do tato: o desejo despertado pela visão do corpo escondido por “véus” impele o sujeito a desnudar o outro. Nesse sentido, ver é tocar, e o ato de tocar é guiado pelo olho que torna erógeno o corpo.

E, de fato, se à primeira excitação provocada pelo olho for acrescentada outra por meio de carícias manuais (o tato), a conseqüência é um sentimento de prazer que é reforçado por um novo sentimento de prazer. Assim é que a pulsão escópica confere ao olho a função de tocar com o olhar, de despir com o olhar, de acariciar com o olhar. Não há palavras para dizer o olhar – o olhar tem, na verdade, uma consistência inapreensível. Nós não temos necessidade de ver e, sim, desejo de olhar: “um olhar não se pede – ele comparece ou não”6.

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5Cf. Freud, Sigmund. (1915) Pulsiones y destinos de pulsión. In: Freud, Sigmund. Sigmund Freud Obras Completas. Buenos Aires, Amorrortu editores (A.E.), vol. XIV, 1989, pp. 105-134; Lacan, Jacques. (1964) Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.

6Quinet, Antonio. Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002, p. 69.