ENSAIO - O Divã Na Tv
O DIVÃ NA TV

Entre os reality shows e a teledramaturgia

Ensaio publicado originalmente em
Psicanálise, Arte e Estéticas de Subjetivação - Organização Giovanna Bartucci 
Imago - 2002 - Págs. 17-24

Giovanna Bartucci

Na verdade, a televisão, na era da globalização, não parece estar promovendo mudanças sociais significativas, ou mesmo figurando algo antecipadamente, como propõem alguns especialistas. No que se refere às subjetividades na atualidade, a televisão parece estar, sim, refletindo “diferentes estados de alma”. O que dizer, afinal, do sucesso mundial dos reality shows, inclusive no Brasil? E, ao mesmo tempo, o que dizer da existência de uma teledramaturgia brasileira que – de fórmula inédita, hoje mundialmente respeitada e copiada – teve com uma novela como O Clone1 , de Glória Perez, os mais altos índices de audiência? A pergunta, então, parece ser: quem é este telespectador que, de forma contraditória, é capaz de render suas homenagens ao folhetim de Glória Perez – que, embora clássico em seu formato, destacou-se pela dinâmica reflexiva que instituiu por toda a trama – para, na seqüência, compartilhar, de forma “interativa”, do destino alheio num reality show?

De fato, o “pós-moderno” parece ser mesmo o lugar da ausência de garantias. A globalização – tendo produzido o enfraquecimento de fronteiras, de distinções entre culturas, aliado a uma mobilidade econômica, geográfica e cultural – tem trazido consigo um contingente de excluídos cuja demanda por reconhecimento é cada vez mais violenta.

Entre a TV aberta e a TV por assinatura, temática, a indústria televisiva é, hoje, peça fundamental de uma indústria cultural de massa diretamente associada à globalização. Assim, ao testemunharmos uma reconfiguração de cenário com a convergência entre TV, Internet e a conseqüente busca por novos formatos, nos habituamos a tratar a televisão globalizada como uma força homogênea e hegemônica, com tal poder sobre o público que efetivamente nos coloca problemas fundamentais no que diz respeito ao controle de conteúdo e fluxo de informação. Entretanto, isto não quer dizer que a audiência tenha se tornado mais homogênea – ao contrário, mais heterogênea, suas respostas são cada vez mais complexas. E ainda que sucesso, aqui, queira dizer aprovação de público – nesse caso, composto por todas as classes sociais –, índices de audiência e percepção acerca do telespectador não se sobrepõem. Principalmente se considerarmos que os índices de audiência massivamente divulgados contam-nos acerca do número de telespectadores que assiste a determinado programa, enquanto raramente se publicam pesquisas que mostrem quem eles são e por que o fazem.

É neste sentido que cabe, aqui, uma interrogação acerca do sucesso mundial dos reality shows. Representante de uma “estética”2 que pretende substituir ficção por realidade, no Brasil, encontramos os reality shows nos mais diversos formatos: Big Brother Brasil, Casa dos Artistas, mas também “as pegadinhas” do Silvio Santos e do Sérgio Malandro, Sufoco do Domingão do Faustão, Linha Direta da Globo e Território Livre da Bandeirantes, entre outros.

O fato é que, ainda que pretenda substituir ficção por realidade, o reality show é uma obra aberta, idealmente roteirizada para ser avaliada no decorrer de sua exibição. Com os participantes dirigindo-se à câmera “como se” a um interlocutor, sendo o interlocutor o próprio telespectador, é possível pensar o gênero como aquele que envolve algum tipo de participação dos cidadãos, até então reduzidos a posição de “meros” espectadores. Com efeito, se em todo o mundo é o formato o que se mantém, sendo os participantes o que se altera, para que um reality show “dê certo” é necessário que tanto participantes quanto telespectadores pertençam a “comunidades imaginárias”. Ainda que convocando, contudo, o próprio telespectador a participar também do processo de produção da informação, não me parece que num espetáculo interativo sejamos convidados a “optar o tempo todo”.

Assim, se nos oferece a ilusão da plenitude ao valorizar um presente fugaz e eterno, ao nos ofertar a certeza da satisfação garantida – seja por meio da alegria ou sofrimento compartilhado, ou por meio da participação dos cidadãos na resolução de um crime –, o formato parece dar a ver uma certa configuração subjetiva contemporânea. De fato, ainda que o que seduza não seja necessariamente o conteúdo dos programas – vide as numerosas referências na imprensa quanto a nossa miséria cotidiana vigiada, ou mesmo quanto ao “poder pífio” exercido pelos telespectadores –, o que alguns têm identificado como “a desconstrução da privacidade”, ou o “fenômeno da corrosão das intimidades”, parece estar mais próximo, na verdade, ao living theater, expressão que destaca o fundamental: “o que se chama de reality show é uma contradição em termos que só funciona, justamente, graças a essa contradição”4. O que se destaca, no entanto, é que, na contemporaneidade, a audiência, não mais anônima, deseja, sim, ser olhada – reconhecida no seu anonimato.

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1O Clone, novela de Glória Perez, foi exibida pela Rede Globo de Televisão de outubro de 2001 a junho de 2002, registrando um dos mais altos índices de audiência dos últimos anos no que se refere à teledramaturgia brasileira.

2Alguns destes programas também podem ser facilmente citados como pertencendo a uma “estética do grotesto”. Cf. Sodré, Muniz; Paiva, Raquel. O império do grotesto. Rio de Janeiro, Mauad, 2002.

3Cf. Bentes, Ivana. (2002) Guerrilha de Sofá; Costa, Jurandir Freire. (2002) Diversão ou desatino; Marcondes Filho, Ciro. (2002) A devoração da telinha; Caderno “Mais!”, jornal Folha de S.Paulo, 31 de março de 2002, pp. 6-7, pp. 4-5, pp. 8-9.

4Andrade, Sérgio Augusto de. (2002) O hobby de julgar. Revista BRAVO!, São Paulo, ano 5, n 56, maio de 2002, p. 23. Ainda que chame atenção para esta formulação, discordo de Sérgio Augusto de Andrade – como se pode constatar – quando afirma que “a base de todo reality show é outro impulso incontrolável (…), o julgamento”.