ENSAIO - Um Mergulho Literário No País Do Sol Nascente
Diário de um velho louco [Estação Liberdade, tradução de Leiko Gotoda, 2002], uma das últimas obras de Tanizaki, publicada em 1961, antes de sua morte, apresenta inegável parentesco com A casa das belas adormecidas [Estação Liberdade, tradução de Meiko Shimon, 2004], obra de Kawabata publicada em 1960. Entre as duas há, entretanto, uma distinção importante. Enquanto Diários... retrata a construção lenta e gradual de um jogo de poder que envolve o patriarca de 77 anos da família Utsugi e sua nora, a bela Satsuko, uma ex-dançarina de casas noturnas que faz uso de seus talentos femininos para fascinar, controlar e manipular o sogro, A casa... conta a vivência de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “casa das belas adormecidas”, local no qual tem a possibilidade de experimentar a exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado, sob o efeito de narcóticos. Entretanto, haveria algo mais deplorável do que um velho que se deita ao lado de uma jovem adormecida que não acorda a noite inteira? Acaso não teria Eguchi ido àquela casa à procura dessa extrema miséria da velhice?” Ainda assim, se essas garotas pareceriam ser “a própria vida” para os colegas de Eguchi, que lá iam “sempre que o desespero de envelhecer se tornava insuportável”, confrontado com a virgindade das jovens, podendo tocá-las apenas, Eguchi inicia uma viagem delicada por meio da qual procura alcançar serenidade de espírito. Nessa medida, enquanto o velho Eguchi resgatará um tempo ido por meio da repressão do desejo, do autocontrole, serão a posição de quem não tem muito a perder, acrescida da consciência da aproximação da morte, que farão com que o patriarca Utsugi rompa com as convenções sociais, entregando-se a exaltação de seus prazeres hedonistas. Assim, comprovadamente intimista e centrado na sensualidade, seja por meio de relações amorosas que põem em cena um confronto de gerações e de costumes, ou por meio de personagens que corrompem e se deixam corromper, a sedução irá se consolidar, contudo, como crueldade, no universo literário de Tanizaki.
Desde o final da Segunda Grande Guerra, é fato que a sociedade japonesa vem passando por mudanças contínuas. As obras de Kenzaburo Oe e Huraki Murakami, ambos representantes máximos da literatura japonesa contemporânea, apresentam, contudo, características distintas. Segundo escritor japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1994, “pela força poética ao serviço de um mundo imaginado, onde a vida e o mito co-existem para integrar uma desconcertante pintura do ser humano hoje”, Kenzaburo Oe é considerado o primeiro escritor japonês verdadeiramente moderno. Enquanto a obra de Murakami é profundamente marcada pelo Japão cosmopolita, Oe faz parte de uma geração que foi marcada pela Guerra e pela descaracterização do Japão tradicionalista. Pertencendo a uma família de ricos proprietários de terra que perdeu a maior parte de suas terras com a ocupação, as obras de Oe expressam a desilusão e a rebeldia da geração do pós-guerra. De fato, seus heróis agem com profundo sentido de hostilidade e rebelião, ou percorrem ainda os caminhos transgressivos do desejo.
De forma geral, a obra de Oe também se divide em duas grandes vertentes. Um escritor politizado, os seus primeiros trabalhos expressam o sentimento de degradação e humilhação ocasionado pela capitulação do Japão no final da Segunda Grande Guerra, acrescido dos conflitos vividos pelos habitantes de um Japão agrário e tradicionalista, mergulhado em seus mitos e rituais, afinal confrontado com a vida das cidades. O grito silencioso, romance de 1967 [Abril Cultural, tradução de Sergio Ryff, 1986], seria um bom exemplo desse veio. Caracterizando, então, uma outra vertente da literatura de Oe, escrito após o nascimento de seu primeiro filho, Uma questão pessoal, de 1964 [Cia. Das Letras, tradução de Shintaro Hayashi, 2003], um dos mais aclamados romances do Japão contemporâneo, trata da luta de um jovem pai para aceitar o nascimento de seu filho mongolóide. Vale lembrar, contudo, que se o nascimento de um filho mongolóide provou ser o motor de muitos de seus trabalhos, os temas de Oe não deixaram de ser metáforas da condição humana contemporânea.
Buscando romper o isolamento cultural por meio de referências globalizantes, ainda que criticado pelos adeptos do establishment literário japonês, Haruki Murakami tem produzido romances profundamente criativos e desconcertantes. Nascido em Kobe, em 1949, estudou Arte Dramática pela Faculdade de Letras da Universidade de Waseda, antes de ser proprietário, com a esposa, de um bar de jazz em Tóquio, durante os anos de 1974 a 1981. Como sugere Jefferson Teixeira, em artigo recente também publicado na Cult, um dos tradutores de suas obras para a língua portuguesa, “o movimento estudantil de final dos anos 1960, quando lá estudava, assim como a incipiente contracultura no país, teve profunda influência sobre sua obra, na medida em que representou a primeira exposição de sua geração ao vazio de ideias em uma sociedade voltada para o grupo em detrimento do indivíduo e à total submissão, sem questionamentos, às exigências sociais”.
Em 1979, Murakami publica, então, o seu primeiro romance, Ouvindo o vento cantar, pelo qual é agraciado com o Prêmio Literário Gunzo. A premiação de Caçando carneiros [Estação Liberdade, tradução de Leiko Gotoda, 2001], seu terceiro romance, em 1982, com o Prêmio Noma para Novos Autores, possibilitou que Murakami passasse a se dedicar exclusivamente a literatura. Agraciado ainda com o prestigioso Prêmio Tanizaki, o Prêmio Yomiuri de Literatura, Murakami também é tradutor de F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, Paul Theroux, John Irving e Raymond Carver, dentre outros escritores americanos contemporâneos, além de ter se dedicado ao ensino de literatura em universidades americanas, durante quatro anos.
Assim, se Caçando carneiros, um romance híbrido de mitologia e mistério, é considerado uma crítica social, a exemplo da busca por uma identidade, Minha querida Sputnik, romance publicado em 2001 [Objetiva, tradução de Ana Luiza Borges, 2003], agora uma história de amor e mistério, também trata da busca por uma identidade, mas, neste caso, por meio da vivência de um grande amor. Será, assim, por meio de uma busca permanente que o aspecto revolucionário da obra de Murakami parece ter, de fato, subvertido os parâmetros da “pura literatura japonesa”.
A verdade é que o que estes autores, afinal, nos proporcionam, por meio de uma viagem literária ao país do sol nascente, é um rico e profundo mergulho do qual todos saimos transformados.