ENSAIO - Um Mergulho Literário No País Do Sol Nascente
De fato, a dinâmica da encenação também será o movimento destrutivo que empresta ímpeto a Cores..., um romance excepcional. Contra o pano de fundo da vida noturna da Tóquio do pós-guerra, celebrado com a publicação de suas Obras completas no outono da carreira, Shunsuke Hinoki conhece Yuichi Minami, jovem e misógino estudante que os pais gostariam de ver casado com uma moça de boa família. Fazendo-se mentor do atraente Yuichi, o velho escritor transforma o rapaz em joguete numa trama de teor sádico, que tem como objetivo vingar a própria feiúra e a série de infortúnios amorosos por que passou, castigando as mulheres, em especial, ao mesmo tempo que encenando uma demonstração de sua visão amarga do conflito entre a arte e a vida.
É verdade, enquanto Confissões... e Cores... são romances considerados representativos, de uma forma geral, da obra do escritor, alguns críticos vêem em Mar inquieto influências explícitas sofridas por Mishima no que se refere a literatura ocidental, por meio da associação da trama à uma fábula grega, ou mesmo ao enredo de Romeu e Julieta, de Shakespeare. De corpo forte e alma reta, o jovem Shinji vive em perfeita harmonia o cotidiano de trabalho ditado pelos humores do mar, até o dia em que uma garota o desperta para sentimentos e inquietações que desconhece. Os amores difíceis de Shinji e Hatsue formam a corrente central de Mar. Simples como o modo de vida de seus personagens, os habitantes da pequena ilha de Utajima, a narrativa pouco se desvia de seu veio principal, ou seja, os percalços familiares e sociais que o jovem casal de amantes deve enfrentar, seja sob as feições oportunistas de um pretendente rival, seja sob a figura do pai da moça. Contra tudo e contra todos, eles dispõem apenas da própria determinação, logo posta à prova.
É consenso que o vínculo literário e a relação de amizade que se estabeleceu entre Mishima e Kawabata, considerado o mentor de muitos da nova geração de escritores japoneses, dentre os quais o próprio Mishima, também se baseava na oposição de Kawabata ao que se refere a ocidentalização e particularmente a culturalização americana do Japão. Influênciado também tanto pela literatura oriental quanto pela literatura ocidental, na década de 1930, entretanto, Kawabata abandona as técnicas literárias de origem ocidental que então experimentava para voltar-se para a junbungaku, ao pautar-se pelos cânones e pela estética formal preconizada pela “literatura pura” japonesa.
Membro da Academia de Arte do Japão, em 1953, presidente do Clube dos Escritores (Pen Club) quatro anos depois, agraciado, em 1959, com a medalha Goethe em Frankfurt, Alemanha, professor convidado em universidades americanas na década de 1960, Kawabata recebe o Prêmio Nobel de Literatura, em 1968, “pelo domínio de sua narrativa, expressando com admirável sensibilidade o espírito japonês”. Romancista, escritor de pequenas novelas, ensaísta e crítico literário, com uma obra marcada por uma fascinação pelo mundo feminino, pela sexualidade humana e permeada pelo erotismo, beleza e delicadeza, pelos temas da transitoriedade, da morte e fatalidade, tornou-se consenso de crítica que Kawabata também descreve com precisão as profundezas da alma feminina.
Considerada uma de suas obras mais importantes, No país das neves [Estação Liberdade, tradução de Neide Nagae, 2004], romance cuja primeira versão teria sido publicada em 1937, sendo finalmente concluído em 1947, retrata a busca de Shimamura, um intelectual de posses, por uma linda e etérea flor silvestre. Em sua procura, entretanto, Shimamura encontra Kokako, gueixa das montanhas. Entre Yoko, jovem provinciana, Kokako, e Shimamura, constrói-se, afinal, um velado triângulo amoroso por meio do qual Kawabata desenvolve o tema do amor sem esperança de retribuição, uma vez que tanto Kokako quanto Shimamura têm conhecimento de que sua relação não tem futuro.
Também Beleza e tristeza [Globo, tradução de Alexandre Martins, 2004], último romance de Kawabata, publicado em 1965, narra a busca de Oki Toshio, renomado escritor de meia-idade, que retorna a Kyoto às vésperas do Ano-Novo para ouvir os sinos dos templos budistas soarem, como manda a tradição japonesa. Toshio também é movido por um desejo secreto: o de reencontrar Otoko, uma antiga amante, atualmente uma pintora consagrada. Contudo, Otoko tem uma jovem aluna, Keiko, que ciente do término trágico do romance decide vingar a mestra. Será, então, em torno desses três personagens trágicos que Kawabata irá tecer uma reflexão acerca do amor sublimado por meio da arte e da literatura.
Publicado originalmente em 1962, Kyoto [Abril Cultural, tradução portuguesa de Vírgilio Martinho, 1985] pode ser considerado o mais emblemático de seus romances. A própria cidade se constituindo como um personagem, com seus templos, dança e música tradicionais, a arte do chá, festas seculares que proporcionam a cadência cotidiana da vida, Chieko, sua personagem principal, uma jovem que trabalha na loja de tecidos de seus pais, terá que encontrar uma forma para não a ver falir, assim como se passara a tantas outras lojas tradicionais da antiga capital japonesa, em razão da mudança dos valores culturais. A tranqüilidade de Chieko, no entanto, só será restabelecida quando, pela primeira vez, trava conhecimento com a irmã gêmea da qual havia sido separada ao nascer, e cuja existência até então ignorava.
O fato é que o tema do desejo, em sua veia ora transgressiva, ora contida, presente de forma explícita e constante nas obras tanto de Mishima quanto de Kawabata e Tanizaki, se constitue no cerne da literatura destes autores.
Tendo estudado literatura japonesa na Universidade Imperial de Tóquio, experiência esta que foi interrompida por falta de pagamento das mensalidades, a produção de Jun’ichiro Tanizaki está dividida, assim como a de muitos escritores de sua geração, em duas fases, a da juventude, revelando influência marcante da literatura ocidental, e a da maturidade, na qual o autor se deixa absorver pela cultura de seu país, abandonando a inclinação ocidentalizante. Entretanto, ainda que Tanizaki tenha se debruçado sobre o tema do conflito entre as culturas tradicional e moderna, e sobre o tema da ocidentalização da cultura japonesa, o que irá distingüir a obra do escritor da de seus colegas é o fato de que Tanizaki não tinha influência do cristianismo e suas normas morais. Assim, não há, em seus livros, a presença da oposição cristã entre corpo e alma. A carne, de fato, não é pecaminosa e a sexualidade não é obra do diabo, conceito este desconhecido do universo budista. Com efeito, a obra de um dos autores centrais da literatura japonesa do século 20 se caracteriza justamente por descrever as diversas variações do amor sexual de forma completa e sem julgamentos morais. Ainda assim, seja nos romances Amor insensato, de 1924 [tradução de Jefferson Teixeira, 2004], Há quem prefira urtigas, de 1928 [tradução de Leiko Gotoda, 2003], Voragem, de 1931 [tradução de Leiko Gotoda, 2001], ou ainda no romance A chave, de 1956 [tradução de Jefferson Teixeira, 2000], a presença do erotismo é frequentemente associada à idéia de limite, de fronteira tornada, então, destrutiva.