ENSAIO - Um Mergulho Literário No País Do Sol Nascente
UM MERGULHO LITERÁRIO NO PAÍS DO SOL NASCENTE
A moderna literatura japonesa ganha força no Brasil, com traduções de obras que mostram uma cultura dividida entre as pressões globais e tradições ancestrais
Publicado online na Revista Idiossincrasia - Portal Literal
23 de abril de 2005
Giovanna Bartucci
O novo milênio tem visto uma aproximação constante e vigorosa da literatura japonesa com o público brasileiro. Representantes máximos da literatura japonesa do século 20, Jun’ichiro Tanizaki (1886-1965), Eiji Yoshikawa (1892-1962), Yasunari Kawabata (1899-1972), Yukio Mishima (1925-1970), Kenzaburo Oe (1935-) e ainda de Haruki Murakami (1949-), têm tido as suas obras traduzidas para o português, em sua maioria, direto do japonês. Contando com o subsídio do programa de apoio à traduções da Fundação Japão, para grande número destas traduções, o ano de 2005 promete ainda a publicação do romance Mil tsurus (1949-1952) e a reedição Kyoto (1962), ambos de autoria de Kawabata, pela editora Estação Liberdade. Some-se a esses títulos ainda duas obras importantes de Murakami, Norwegian Wood (1987) – romance este que o alçou à condição de autor mais popular e influente do pós-guerra japonês e ícone da cultura pop – e Dance dance dance (1988), pelas editoras Objetiva e Estação Liberdade, também com lançamentos previstos para este ano.
Com efeito, se a resposta das sociedades ameaçadas por uma cultura global emergente, fundamentalmente de origem ocidental e especialmente a norte-americana, dá-se em um grau entre a aceitação e a rejeição, com posições intermediárias de coexistência e síntese, o lançamento recente de As irmãs Makioka (1943-1948), pela Estação Liberdade [traduções de Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Nagae e Eliza Tashiro, 744 págs., R$ 72,00] vem atestar o fato de que a oposição ao que se refere a ocidentalização do Japão já teria se explicitado por meio de obras de grandes nomes da literatura japonesa. Da mesma forma, também a expressão literária oriunda de interações culturais só viria a se manifestar, de forma clara, nos anos do pós-guerra.
Assim, As irmãs Makioka, escrito durante o pós-guerra e publicado originalmente em três volumes, e ainda censurado, retrata a sociedade japonesa durante os anos 1930 por meio de uma encenação dos costumes, da cultura e das relações sociais tradicionais. De fato, se o romance expõe os conflitos entre valores japoneses e ocidentais, assim como o impacto da modernização do país nas relações pessoais, também coube a Musashi [Estação Liberdade, tradução de Leiko Gotoda, 1999, 2 volumes] espelhar a realidade de uma época. Romance épico de autoria de Eiji Yoshikawa, Musashi fornece um relato da história e da vida do povo japonês durante o período em que viveu o mais famoso samurai do Japão, provavelmente entre os anos de 1584 e 1645. Equiparado por Edwin Reischauer ao E o vento levou (1936), de Margaret Mitchell, em seu prefácio à edição norte-america do épico, esse romance foi publicado originalmente em forma de folhetim no jornal japonês Asahi Shimbu, entre 1935 e 1939. Vale salientar, como o faz o prefaciador, que “a comparação com o romance não é, de modo algum, forçada. A era dos samurais permance ainda muito viva na mente dos japoneses. Contrariando o esteriótipo de ‘animal econômico’ de orientação coletiva do japonês moderno, muitos preferem ver-se como modernos Musashis, ferozmente individualistas, de princípios elevados, autodisciplinados e estéticamente sensíveis. Ambos os quadros têm certo valor, ilustrando a complexidade da alma japonesa sob um exterior aparentemente afável e uniforme”.
Com inúmeras edições em forma de livro, tema de diversas produções cinematográficas, encenado por diferentes vezes no teatro e transformado em miniséries televisionadas, Musashi narra a história de um personagem histórico. Assim, terá sido por meio do romance de Yoshikawa, um dos escritores mais populares do Japão, que o samurai e diversos personagens principais passaram a integrar o folclore vivo do Japão. “Para o leitor estrangeiro esse fato contribui para tornar o romance ainda mais interressante, pois não só fornece uma porção romantizada da história japonesa, como também uma perspectiva de como os japoneses vêem a si mesmos e ao seu passado”, observa Reischauer.
Acrescente-se ainda a esta rica literatura atualmente disponível, Gueixa (1983) [Objetiva, tradução de S. Duarte, 2004], obra caracterizada por sua autora, a antropóloga norte-americana especializada em cultura japonesa Liza Dalby, como uma etnografia – ou seja, um estudo descritivo dos costumes de um povo específico – que aborda em profundidade as gueixas em seu contexto cultural. Sem concebê-las como um microcosmo da sociedade japonesa, ainda que identificado pelos japoneses como “o mais japones” dos grupos definíveis, para poder dizer algo sobre as gueixas tornou-se necessário à autora falar sobre os costumes, as crenças religiosas, a vestimenta, a alimentação, a música, as relações entre homens e mulheres, a interação social, a psicologia, a história, a legislação, a prática comercial, ou seja, sobre estética e consciência da identidade cultural, tais como no Japão, findando por promover, assim, uma maior compreensão do país e seu povo.
A obra literária, contudo, ou a vida que quiça explicite de forma clara as contradições presentes no que se refere a “ocidentalização” da cultura japonesa talvez seja a de Yukio Mishima, pseudônimo para Kimitake Hiraoka. Por três vezes indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, filho de um oficial do governo, Mishima nasceu em Tóquio, em 1925, em uma família permeada pelo “espírito dos samurai”: nobreza, veracidade, controle permanente da mente e do corpo e, acima de tudo, lealdade ao Imperador. Influenciado tanto pelos clássicos japoneses, quanto pela literatura ocidental, dramaturgo, ator e diretor, escritor prolífico de contos, peças e ensaios, a vida era contemplada por Mishima por meio da idéia de morte, posteriormente transmutada para um desejo ardente pelo trágico. Como constata Darci Kusano, em artigo recente publicado na revista Cult, “por não admitir o envelhecimento natural do corpo e influenciado pelo conceito de bunbu ryodô, o caminho combinado do erudito e do guerreiro (...) de que a excelência em ambas as artes, literária e militar, palavras e ação, só se dá no momento da morte, (Mishima) comete o seppuku em defesa da idéia cultural do imperador, a identidade nipônica perdida”.
Com efeito, também Yasunari Kawabata, deprimido e desgastado pelo execesso de compromissos, cometeria o suicidio, em abril de 1972, dois anos após a realização do seppuku – o mais doloroso método de suicídio ao cortar-se o abdômen –, por seu amigo ultra-nacionalista Mishima, em protesto pela ocidentalização e constituição pacifista japonesa.
Com diversos títulos publicados na década de 1980, pela extinta editora Brasiliense, os romances Confissões de uma máscara [tradução de Jaqueline Nabeta, 2004], Cores proibidas [tradução de Jefferson Teixeira, 2002] e Mar inquiéto [tradução de Leiko Gotoda, 2002], editados originalmente em 1949, 1951 e 1954, respectivamente, e atualmente disponíveis pela editora Companhia das Letras, mapeam razoavelmente bem, por meio de seu veio autobiográfico e trágico, a sua extrema sensibilidade, e algumas das características romanescas de Mishima.
Primeiro romance do escritor, Confissões... narra, em primeira pessoa e com riqueza de elementos autobiográficos, a descoberta das inclinações homoeróticas do narrador e a seqüência de percalços que lhe é imposta. “E ali naquela casa, sem que ninguém dissesse ou mencionasse coisa alguma, cobravam-me que fosse um menino. Era o início de uma representação que não me agradava. Foi a partir dessa época que comecei a compreender vagamente o mecanismo segundo o qual o que parecia ser uma representação aos olhos das pessoas, era para mim expressão da necessidade de retornar a minha própria essência, ao passo que o que parecia a todos o meu jeito natural de ser era, na realidade, uma encenação”.