Também
Beleza e tristeza (1965), último romance de Kawabata, narra uma busca, a de Oki Toshio, renomado escritor de meia-idade que retorna a Kyoto às vésperas do Ano-Novo para ouvir os sinos dos templos budistas soarem, como manda a tradição japonesa. Toshio também é movido por um desejo secreto: o de reencontrar Otoko, uma antiga amante, atualmente uma pintora consagrada. Otoko, entretanto, tem uma jovem aluna, Keiko, que ciente do término trágico do romance decide vingar a mestra. Será, então, em torno desses três personagens trágicos que Kawabata irá tecer uma reflexão acerca do amor sublimado por meio da arte e da literatura.
O fato é que as perdas que Kawabata sofreria na infância de certo marcariam as suas concepções sobre a transitoriedade da vida e solidão permanentes. Nascido em Osaka, em 1899, após a morte prematura de seus pais, o jovem Kawabata permanece sob os cuidados do avô materno. Alguns anos mais tarde, no entanto, morreria a sua única irmã, e aos 15 anos, Kawabata já teria perdido toda a família. Mais do que uma “estratégia literária”, o tema da transitoriedade estará presente na obra de Kawabata como um fio condutor – um “meio de transporte” de um tempo a outro –, seja por meio dos dilemas que se estabelecem no cerne dos triângulos amorosos, seja por meio da constatação do amor impossível, ou mesmo da exploração do corpo feminino que o escritor revela em todo o seu esplendor, em alguns de seus romances.
No que se refere a ocidentalização e particularmente a culturalização americana do Japão, contudo, o melhor exemplo desta tentativa de resgate, deste deslocamento de um tempo a outro, talvez seja
Kyoto (1962). O mais emblemático de seus romances, permeado por templos, dança e música tradicionais, a arte do chá, festas seculares que proporcionam a cadência cotidiana da vida, a cidade de Kyoto, ela própria um personagem,
Kyoto é, de fato, uma reação contra a ocidentalização do Japão – “todo o Japão se parece com um bonsai!”
3. Chieko, sua personagem principal, uma jovem que trabalha na loja de tecidos de seus pais e que tem de encontrar uma forma para não a ver falir, como se passara a tantas outras lojas tradicionais da antiga capital japonesa em razão da mudança dos valores culturais, só reencontrará a tranqüilidade, no entanto, quando, pela primeira vez, trava conhecimento com a irmã gêmea da qual foi separada ao nascer e cuja existência até então ignorava.
Também é verdade que
Diário de um velho louco (1961), uma das últimas obras de Jun’ichiro Tanizaki a ser publicada antes de sua morte, apresenta inegável parentesco com
A casa das belas adormecidas, obra de Kawabata publicada em 1960. Entre as duas há, entretanto, uma distinção importante. Enquanto
Diários... retrata a construção lenta e gradual de um jogo de poder que envolve o patriarca de 77 anos da família Utsugi e sua nora, a bela Satsuko, uma ex-dançarina de casas noturnas que faz uso de seus talentos femininos para fascinar, controlar e manipular o sogro,
A casa... conta a vivência de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “casa das belas adormecidas”, local no qual tem a possibilidade de experimentar a exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado, sob o efeito de narcóticos. Contudo, ainda que a posição de quem não tem muito a perder, acrescida da consciência da aproximação da morte, fazem com que o patriarca Utsugi rompa com as convenções sociais, entregando-se a exaltação de seus prazeres hedonistas, será por meio da repressão do desejo, do autocontrole, que o velho Eguchi resgatará um tempo ido. Ainda assim, “haveria algo mais deplorável do que um velho que se deita ao lado de uma jovem adormecida que não acorda a noite inteira? Acaso não teria Eguchi ido àquela casa à procura dessa extrema miséria da velhice?” É imprescindível reconhecer, entretanto, que se essas garotas pareceriam ser “a própria vida” para os colegas de Eguchi, que lá iam “sempre que o desespero de envelhecer se tornava insuportável”
4, confrontado com a virgindade das jovens, podendo tocá-las apenas, Eguchi inicia uma viagem delicada por meio da qual procura alcançar serenidade de espírito.
Assim é que, com uma obra literária permeada pelo erotismo, pela beleza e pela delicadeza, os temas da transitoriedade, da morte e fatalidade, serão para Kawabata instrumentos de transporte, de busca pela vivência de um tempo do qual nada se necessita saber, mas que, como um tesouro, afinal, cai do céu.
Encontrado morto em sua casa, asfixiado por gás, as causas da morte de Kawabata jamais seriam conhecidas. Dois anos após a realização do
seppuku – o mais doloroso método de suicídio, ao cortar-se o abdômen –, por seu amigo Mishima, em 1970, então um ativista ultra-nacionalista, em protesto pela ocidentalização e constituição pacifista japonesa, deprimido, desgastado pelo execesso de compromissos, Kawabata suicida-se em abril de 1972.
3 Kawabata, Yasunari. (1960)
A casa das belas adormecidas. São Paulo, Estação Liberdade, 2004, p. 14, p. 22.
4 _______________. (1962)
op. cit., 153.