CORPOS CONDUTORES EM UMA REGIÃO DE MISTÉRIO
Sobre a literatura de Yasunari Kawabata
O escritor Yusunari kawabata é o mestre do erotismo,
da beleza, da delicadeza e da morte
Publicado na revista CULT – Ano VII – n° 89 – Págs. 15-17
Fevereiro de 2005
Giovanna Bartucci
“Não me pergunte mais nada do passado.
São infinitos os modos como os tesouros caem do céu”
1.
Yasunari Kawabata
Com uma obra marcada por uma fascinação pelo mundo feminino, pela sexualidade humana, pelo tema da transitoriedade, da morte e fatalidade, também eu confirmaria que “são infinitos os modos como os tesouros caem do céu”, caso me fosse dado condensar em algumas palavras a literatura de Yasunari Kawabata (1899-1972). Os romances
O país das neves (1937) e
A casa das belas adormecidas (1960), traduzidos para a língua portuguesa direto do japonês por Neide Nagae e Meiko Shimon, respectivamente, lançamentos recentes da editora Estação Liberdade, que também contou com o subsídio do programa de apoio a traduções da Fundação Japão, atestam tal afirmação.
Romancista, escritor de pequenas novelas, ensaísta, crítico literário e considerado o mentor de muitos escritores da nova geração, dentre eles, Yukio Mishima (1925-1970), Kawabata compõe, ao lado de Jun’ichiro Tanizaki (1886-1965), Eiji Yoshikawa (1892-1962), do próprio Mishima, de Kenzaburo Oe (1935-) e ainda de Haruki Murakami (1949-), os grandes nomes da literatura japonesa do século 20. De fato, tendo se tornado membro da Academia de Arte do Japão, em 1953, presidente do Clube dos Escritores (
Pen Club) quatro anos depois, tendo sido agraciado com a medalha Goethe em Frankfurt, na Alemanha, em 1959, e lecionado em universidades americanas na década de 1960, não à toa Kawabata recebeu o Prêmio Nobel de Literatura
2, em 1968, “pelo domínio de sua narrativa, expressando com admirável sensibilidade o espírito japonês”. Kenzaburo Oe seria o segundo escritor japonês a receber o mesmo prêmio, em 1994, “pela força poética ao serviço de um mundo imaginado, onde a vida e o mito co-existem para integrar uma desconcertante pintura do ser humano hoje”.
Assim, tendo se interessado, durante a sua adolescência, pela literatura budista, particularmente a do período Hian, que estende-se do século 9 ao século 12, Yasunari Kawabata gradua-se pela Universidade Imperial de Tóquio, onde estuda inicialmente literatura inglesa, para logo em seguida transferir-se para a cadeira de literatura japonesa. Durante a sua permanência na universidade, o jovem escritor colabora com a revista estudantil
Shinshichô, na qual publica um conto sobre as condições experimentadas por seu país durante a Primeira Grande Guerra, e que muito impressiona o novelista e dramaturgo Ken Kikuchi. Kikuchi torna-se, então, seu mentor intelectual, levando-o a participar de seu jornal literário
Bunjei Shunju. Após a sua formatura, em 1924, Kawabata funda, junto com outros jovens escritores, a
Bungei Jidai, revista literária que seria porta-voz de um movimento vanguardista conhecido como
Shinkankaku-ha, ou neo-sensualismo, neo-sensorialista, ou ainda, neo-impressionismo. Ao rejeitar o realismo então em voga no Japão, em prol de uma escrita lírica e impressionista, seus participantes tentariam capturar sentimentos de pureza e de vida por meio da prática da “escrita automática” ou “fluxo de consciência”, técnicas que muito marcariam a literatura ocidental. Na década seguinte, contudo, Kawabata abandonaria as técnicas então experimentais para voltar-se para a
junbungaku, ao pautar-se pelos cânones e pela estética formal preconizada pela “literatura pura” japonesa.
Expressando uma rica e densa combinação da tradição clássica japonesa, do budismo e da poesia
haiku, ou haicai – poemas de 17 sílabas, compostos por uma métrica rigorosa de 5-7-5 sílabas –, tornou-se consenso de crítica ainda que Kawabata descreve com precisão as profundezas da alma feminina. Com efeito, considerada pelos especialistas como uma de suas obras mais importantes,
No país das neves, romance cuja a primeira versão teria sido publicada em 1937, sendo finalmente concluído em 1947, retrata a busca de Shimamura, um intelectual de posses, por uma linda e etérea flor silvestre. Em sua procura, no entanto, Shimamura encontra Kokako, gueixa das montanhas. Entre Yoko, jovem provinciana, Kokako, e Shimamura, constrói-se, afinal, um velado triângulo amoroso por meio do qual Kawabata desenvolve o tema do amor sem esperança de retribuição, uma vez que tanto Kokako quanto Shimamura têm conhecimento de que sua relação não tem futuro.
1 Kawabata, Yasunari. (1962)
Kyoto. São Paulo, Abril Cultural, 1985, p. 52.
2 Cf. nobelprize.org