SALAAM CINEMA
Ensaio sobre a cinematografia de Abbas Kiorastami
Para o diretor iraniano Abbas Kiarostami, os filmes são o anteparo necessário à produção de pensamento, e a cada obra ele reitera a pergunta que poderia mover o mundo: “O que fazer com o que fizeram de mim?”
Publicado na revista CULT - Ano VII - n° 86 - Págs. 22-24
Novembro de 2004
Giovanna Bartucci
“Fazer coisas simples exige uma boa dose de experiência”¹.
Abbas Kiarostami
Abbas Kiarostami
2 é um dos mais importantes cineastas da atualidade. Já tendo experimentado linguagens diversas, sejam as artes gráficas, o vídeo, as linguagens televisiva e publicitária, a fotografia, a pintura, a poesia e também o teatro, a criatividade de Kiarostami não tem fronteiras. Um pouco como a imensidão e a vastidão de possibilidades – como constatamos, afinal – retratadas nas paisagens capturadas em seus filmes, rodados em sua terra natal, o Irã, ou mesmo em suas fotografias.
Ainda que o cineasta iraniano considere a fotografia “uma arte mais completa”
3, na medida que “uma fotografia não conta uma história, mas deixá-nos a liberdade de imaginá-la (…) e por isso está em perene transformação”, enquanto que “no cinema, infelizmente, é preciso contar uma história”, no que diz respeito à sétima arte, esta imensidão de possibilidades está diretamente associada ao que o artista entende por “cinema”: “Não gosto quando se limita a contar uma história ou quando se torna um substituto da literatura. Não aceito que subestime ou exalte o espectador. (…) Penso que, se queremos que o cinema seja considerado uma forma de arte maior, é preciso garantir-lhe a possibilidade de não ser entendido”.
A possibilidade de que a “falta de entendimento” permaneça intacta ao final, contudo, implica garantir a possibilidade de que diferentes caminhos possam ser seguidos. Serão, no entanto, pequenos gestos, uma maçã, cerejas, planícies, vales, ou mesmo uma única árvore no topo de uma montanha, os elementos que indicarão o caminho a seguir. E mais, enfrentando dificuldades permanentemente, sejam elas uma acusação de “impostura” (Close-up, 1990), a dura realização do suicídio (Gosto de cereja, 1997), a oposição da vida face à morte, durante a realização de um documentário sobre rituais fúnebres (O vento nos levará, 1999), ou a perda irreversível (Dez, 2002), constatada por meio da possível “eliminação do diretor” na realização do filme, de um filho que necessita distanciar-se da mãe, ou mesmo da mulher que, ao perder o homem que ama, termina por se encontrar, seus personagens estarão sempre indo para algum lugar, realizando tarefas das quais não se desincumbirão, buscando saídas.
Frequentemente vinculado pela crítica ao neo-realismo italiano, a análise da cinematografia do cineasta iraniano realizada por Bernardet, entretanto, sugere que um dos princípios criadores de Kiarostami, a reconstrução, situa o diretor longe de uma relação direta com a realidade.
1Kiarostami, Abbas; Ishagpour, Youssef. Abbas Kiarostami. São Paulo, Cosac Naify/ Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/ Faculdade de Cinema da FAAP, 2004.
2Introduzido ao público brasileiro com Close-up, em 1990, pela 14ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o cineasta iraniano Abbas Kiarostami (1940-) foi convidado especial de sua 28ª edição, com uma retrospectiva dedicada à sua obra. Duas publicações consagradas à sua cinematografia também foram lançadas. Editado pela Cosac Naify, em parceria com a Mostra e a Faculdade de Cinema da FAAP, Abbas Kiarostami reúne uma série de 52 fotografias realizada pelo diretor no Norte do Irã – seleção exibida pelo Museu Nacional do Cinema de Turim, em 2003, e, agora, pelo Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo –, quatro poemas inéditos e três textos de sua autoria, além de sua filmografia completa e comentada (1970-2004). O volume traz ainda o ensaio “O real, cara e a coroa – o cinema de Abbas Kiarostami”, do crítico franco-iraniano Youssef Ishagpour, acrescido de pósfácio de Stella Senra. De autoria de Jean-Claude Bernardet, professor de cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Caminhos de Kiarostami, lançado pela Cia. Das Letras, visa estabelecer um diálogo com a obra do diretor iraniano.
3Kiarostami, Abbas; Ishagpour, Youssef. (2004) op. cit.