ENSAIO - A Fragilidade Absoluta
É verdade, não há como negar: neste contexto histórico-social, também a psicanálise entrou em crise, na medida exata em que se contrapõe aos pressupostos éticos da cultura pós-moderna. A condição de possibilidade para a emergência do inconsciente e da fragmentação pulsional pautando-se justamente na descontrução da “história oficial” do sujeito, ou seja, do registro narcísico do eu.
Também é fato que sem a reinterpretação freudiana das narrativas fundadoras, Édipo seria apenas um personagem de ficção, e não um modelo universal do funcionamento psíquico, não havendo complexo nem organização edipiana da família ocidental. No entanto, confrontado ao desamparo oriundo da diluição das grandes narrativas da modernidade, situado que está entre o medo da desordem e a valorização de uma competitividade baseada no sucesso material, característicos da pós-modernidade, o homem pós-moderno pareceria estar perdendo a sua alma – sem se dar conta disso. A questão fundamental, no entanto, sendo a de que caso a reivindicação à norma sobre a valorização do conflito – característico das sociedades democráticas – venha a prevalecer, também a psicanálise viria a perder a sua força de subversão. Tendo, assim, a sua competência clínica colocada em questão, a reclamação de base parece ser a de que a psicanálise teria se tornado inoperante no contexto histórico da atualidade.
Caso se trate, então, de uma mudança histórica dos analisandos ou de uma mudança na escuta dos analistas, cujas interpretações de sintomatologias antes negligenciadas, teria se aperfeiçoado, temos discutido, efetivamente e de forma generalizada, questões cruciais acerca da constituição da subjetividade na contemporaneidade. Retomemos então a questão, agora com o vetor invertido: o que fazer, contudo, quando as subjetividades e sintomatologias contemporâneas configurem – a priori e especificamente – o esfacelamento do registro narcísico do eu, sem que isso figure, como entendo aqui, uma psicose ou perversão, pertencendo à e permanecendo na esfera do que consideramos neurose? Como responder a esta demanda?
Talvez possamos, de fato, considerar que enquanto constatamos um tal mal-estar na psicanálise na atualidade, enquanto, por exemplo, o roteiro clássico do Édipo – a criança que deseja o pai do sexo oposto e se identifica com aquele de seu próprio sexo – entra em crise, nunca se revelou tão verdadeira uma das descobertas mais importantes da psicanálise, o caráter não adaptativo da sexualidade humana. É nessa medida que as questões relativas à intensidade e ao excesso pulsional, uma vez que se apresentam como características marcantes dos sofrimentos na atualidade, são fundamentais. Tomados pela intensidade e pelo excesso, ao sujeito só lhe resta realizar um trabalho de ligação, que constitua destinos possíveis, ao ordenar circuitos pulsionais e inscrever a pulsão no registro da simbolização, possibilitando assim o trabalho de criação, de produção de sentido.
Assim é que se é precisamente o aparelho psíquico que registra as representações e seus valores significantes para o sujeito que se encontra “avariado,” insistir na experiência da perda, da falta, da castração simbólica como condição de desejo e de prazer, implica – na verdade – um trabalho anterior: constitituir limites entre interioridade e exterioridade, entre sujeito e objeto, entre o sujeito e o outro. Este, sim, condição indispensável para que a liberdade psíquica do sujeito ocorra.
Caso consideremos, então, a experiência psicanalítica como um “lugar psíquico de constituição de subjetividade” – fundamentalmente para aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável –, a possibilidade de reapropriação da essência subversiva da psicanálise estará, de fato, depositada na possibilidade de reestabelecimento das variáveis instauradoras do conflito psíquico – dada, exatamente, por meio da própria experiência psicanalítica.