ENSAIO - A Fragilidade Absoluta
A FRAGILIDADE ABSOLUTA

Publicado na revista CULT - Ano VI - n° 77 - Págs. 44-47
Dossiê “Os Rumos da Psicanálise”
Fevereiro de 2004

Giovanna Bartucci

O fato é que caso queiramos circunscrever a pós-modernidade da perspectiva da globalização neoliberal, não será difícil identificá-la com a crise dos estados-nações, com o enfraquecimento de fronteiras, de distinções entre culturas aliado a uma mobilidade econômica, geográfica e cultural. Somemos à isso as características da natureza geral da guerra e da paz no final do século XX – uma linha divisória que distingue conflitos internos dos internacionais que desapareceu ou tende a desaparecer –, e reconheceremos no contemporâneo o lugar da ausência de garantias.

Com efeito, nossos analisandos o confirmam: aqueles que, nascidos no pós-guerra, encontram-se produtivos, temem por seus filhos e netos. Os que se encontram improdutivos tentam compreender o que deu “errado”, por meio de uma experiência de resignificação de suas próprias vidas. O que é profundamente surpreendente, no entanto, é que as novas gerações não acreditam, não têm a certeza inabalável – que a maioria de nós trazia consigo – de que as suas projeções de futuro se tornarão realidade.

De fato, as novas gerações não têm expectativa de futuro. Partícipes neste nosso mundo globalizado, submetidos à exigência contemporânea da performance permanente, os sujeitos “fazem acontecer” ou, pelo menos, lançam mão de todos os instrumentos de que dispõem para não ficar de fora, corroborando na promoção da indistinção entre “ser” e “parecer”. Como salientam sociólogos, historiadores e economistas que têm a contemporaneidade como tema, dos sujeitos pede-se que sejam ágeis, que estejam disponíveis para mudanças a curto prazo, que assumam riscos continuamente, que sejam independentes. Relegados à própria sorte, sua autonomia termina por configurar-se como uma ilusão de liberdade.


Assim é que imersos no bojo dos processos psicológicos de normalização em detrimento dos processos que têm como base o confronto permanente entre o mesmo e o outro – característicos das sociedades democráticas –, situados entre o desejo de normalização e a possibilidade de resistência face à renúncia de qualquer plano ou esperança utópicos, constatamos, então, que a fragmentação da subjetividade tem um lugar fundamental na nova configuração do social constituída no Ocidente. O autocentramento conjugando-se, assim, ao valor da exterioridade – os destinos do desejo assumindo uma direção autocentrada e exibicionista, daí resultando em um deslizamento generalizado do “ter” para o “parecer”.

Finalmente, face à experiência modificada do tempo, acrescenta-se a experiência alterada em relação ao espaço. Às experiências modificadas de espaço e de tempo, interrelacionam-se, então, mal-estar, violência simbólica e sentimento de insegurança, cujas raízes parecem estar nos processos de fragmentação do social, na medida em que vivemos uma pluralidade de códigos impostos pelo processo de globalização, verificados, fundamentalmente, nas instituições socializadoras. Confrontados à impossibilidade de responder às demandas por resultados e produtividade que lhes são impostas, soma-se, então, a perda dos ideais. Com suas liberdades restritas, os sujeitos trazem consigo uma violência profunda fruto da decomposição dos ideias.

É nessa medida, então, que se a modernidade trouxe para cada sujeito a tarefa intransferível de auto-constituição – ao nutrir a ideologia de uma dinâmica social pautada na inovação permanente e a crença de que, por meio da razão, seria possível atuar sobre a natureza e a sociedade na construção de uma vida satisfatória para todos –, a pós-modernidade tornou essa tarefa excessiva. Compreendida, aqui, em sua concepção histórica como um momento de exacerbação da auto-constituição, no qual o imaginário e a intimidade foram incorporados ao universo das mercadorias, dando lugar a experiência do eterno presente de um “eu jamais acabado”, trata-se, afinal, de nos indagarmos acerca do que seremos capazes de construir, criar, dado este lugar-limite, borda-margem no qual nos encontramos.
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