ENSAIO - O Outro Do Outro - Sobre A Literatura De Haruki Murakami
Como se não bastasse, as experiências pelas quais Toru, o narrador-personagem de Norwegian, passa, até decidir que destino dar à sua vida, são bastante próximas às que K., professor de adolescentes e melhor amigo de Sumire, experimenta até compreender “como Sumire era importante, era insubstituível para (ele)”. De fato, a história de Sumire, jovem aspirante a escritora, de 22 anos, que se veste com o cuidadoso desleixo de um personagem de Jean Kerouac, sua última fixação literária, desejosa de viver como um deles, e que se apaixona pela primeira vez e de forma avassaladora, ocupará o primeiro plano de uma história de mistério e amor que conduz o leitor a uma reflexão sobre o desejo humano. “A pessoa por quem Sumire se apaixonou era, por acaso, dezessete anos mais velha do que ela. E casada. E, devo acrescentar, era uma mulher. Foi aí que tudo começou, e onde tudo acabou”, dirá o narrador. Mais adiante, no entanto, K. será mais explícito: “Está na hora de dizer algumas palavras sobre mim mesmo. É claro que esta história é sobre Sumire, não sobre mim. Porém, é através dos meus olhos que a história é contada – a história de quem é Sumire e do que ela fez – e devo explicar um pouco a respeito do narrador. Eu, em outras palavras.

Acho difícil falar sobre mim mesmo. Sempre tropeço no eterno paradoxo quem sou eu? Claro, ninguém conhece tantos dados sobre mim quanto eu. Mas (...) sempre me perturbou o pensamento de que não estou pintando um quadro muito objetivo de mim mesmo”, atesta o narrador-personagem de Minha querida Sputnik, romance de 1999. Talvez porque, como afirma o próprio Murakami a respeito do narrador de Caçando Carneiros, “o narrador-protagonista dessa novela representa uma parte de mim que eu não conheço. Na verdade, não tenho ideia quanto eu realmente sei sobre esse desconhecido pedaço de mim”5.

Considerado uma crítica social, Caçando carneiros é um romance híbrido de mitologia e mistério cujo protagonista busca escapar de uma sociedade repressora – a exemplo de uma jornada em busca por sua identidade. Minha querida Sputnik também trata de uma jornada em busca de “si mesmo”, a qual, no entanto, se realiza por meio da vivência de um grande amor.

O fato é que se o tema do desejo, em sua veia ora transgressiva, ora contida, encontra-se presente de forma explícita e constante nas obras tanto de Tanizaki e de Kawabata quanto de Mishima, constituindo-se no amâgo da literatura destes autores – em torno do qual giram outros temas – marcada por um Japão cosmopolita, mais do que retratar as influências ocidentalizantes do autor, o que faz é explicitar a importância da experiência da alteridade na constituição de “si mesmo”. Ao situar a alteridade no cerne de sua literatura, por meio das experiências temáticas e formais às quais os seus romances dão vida, Murakami jamais nos deixa esquecer este “outro”, que se torna “insubstituível” na jornada de qualquer sujeito em busca de si mesmo.

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5 Murakami, Huraki. “Murakami sai do Japão para escrever”. Entrevista a Ubiratan Brasil. “Caderno 2”, jornal O Estado de S.Paulo, 16 de julho de 2001.