
É verdade, um romance de formação com toques autobiográficos que capta, com maestria e lirismo a angústia, o desamparo e a experiência de perda vividos na transição da adolescência à idade adulta, Norwegian Wood é, como a canção dos Beatles que lhe empresta o título, uma balada de amor e nostalgia cuja beleza confirma Murakami como uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea. A indagação que insiste, contudo, diz respeito ao notável alcance de sua obra, em todos os países na qual é publicada.
Nascido em Kyoto, em 1949, o escritor formou-se em Dramaturgia Clássica pelo Departamento de Literatura da Universidade de Waseda antes de ser proprietário, com a esposa, de um bar de jazz em Tóquio, durante os anos de 1974 a 1981. Em 1979, publica o seu primeiro romance, ainda inédito no Brasil, Ouvindo o vento cantar, pelo qual é agraciado com o Prêmio Literário Gunzo. A premiação de seu terceiro romance, Caçando carneiros (1982), com o Prêmio Noma para Novos Autores, possibilitou que o autor passasse a se dedicar exclusivamente à literatura. Tendo recebido ainda os prestigiosos Prêmio Tanizaki e Prêmio Yomiuri de Literatura, Murakami também é tradutor de F. Scott Fitzgerald, John Irving, Paul Theroux, Raymond Carver e Truman Capote, dentre outros escritores norte americanos contemporâneos, além de ter lecionado literatura em universidades norte americanas durante os anos de seu exílo voluntário nos EUA.
Com efeito, constatável por meio das publicações de representantes máximos da literatura japonesa do século 20 – tais como Jun’ichiro Tanizaki (1886 – 1965), Eiji Yoshikawa (1892 – 1962), Ysunari Kawabata (1899 – 1972), Yukio Mishima (1925 – 1970), Kenzaburo Oe (1935 - ) – ,aos quais o público brasileiro tem tido acesso de maneira constante a partir da primeira metade da década de 2000, em um país como o Japão – cuja moderna literatura
2 retrata a oposição no que diz respeito à ocidentalização do país e ao expor os conflitos entre os valores japoneses e ocidentais, como também o impacto da modernização do país nas relações pessoais – a expressão literária oriunda de interações culturais só veio a se manifestar, de forma clara, nos anos do pós-guerra. A geração de Murakami, no entanto, seria a primeira a experimentar uma exposição inicial “ao vazio de ideias em uma sociedade voltada para o grupo em detrimento do indivíduo e à total submissão, sem questionamentos, às exigências sociais”
3 . A medida, vale indagar, o que torna a literatura de Haruki Murakami tão singular?
Acompanhado de críticas que lhe são dirigidas pelos adeptos do establishment literário japonês, ou seja, os praticantes da junbungaku, a “literatura pura” japonesa, desde que se iniciou na literatura, Murakami tem buscado incessantemente romper o isolamento cultural – “a sociedade da qual queria escapar quando era jovem”
4 – por meio de referências globalizantes advindas da música, do cinema, das artes e do entretenimento, produzindo, assim, romances profundamente criativos e desconcertantes. Ao fazê-lo, entretanto, não só critica a sociedade de consumo pós-moderna, na qual os sujeitos se deixam consumir freneticamente, como destaca simultaneamente a importância do “outro” na constitução de “si mesmo”.
Não à toa, então, seus personagens, frequentemente associados a “detetives”, estão sempre em busca de seu “eu verdadeiro”. Se tal busca é invariavelmente realizada por meio de um outro, sejam eles amores, amigos ou textos, será sempre o “outro de si próprio” que os narradores visam encontrar.
Com efeito, vale salientar que Murakami utiliza-se, por exemplo, da técnica do intertexto – ou seja, um romance ou carta escritos por um dos personagens apresentará, na página impressa, uma tipologia diferenciada, estabelecendo, então, um diálogo que se realiza neste espaço “entre” as cartas, “entre” as diferentes histórias –, o que constituirá, no entanto, o próprio romance escrito pelo autor.
2 Cf. Bartucci, Giovanna. “No país do sol nascente”. http://portalliteral.terra.com.br, em 23 de abril de 2005.
3 Teixeira, Jefferson. “Ouvindo a canção do vento”. Dossiê “O romance com o Japão”. Revista CULT. Ano VII, n. 80, maio de 2004, pp. 50-53.
4 Murakami, Huraki. “Murakami sai do Japão para escrever”. Entrevista a Ubiratan Brasil. “Caderno 2”, jornal O Estado de S.Paulo, 16 de julho de 2001.