O OUTRO DO OUTRO - Sobre a Literatura De Haruki Murakami
A importância do “outro” na busca de si mesmo em Haruki Murakami, uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea japonesa
Publicado na revista CULT – Ano VIII – nº 98 – Págs. 26-29
Dezembro de 2005
Giovanna Bartucci

“Tive certa vez uma garota, talvez devesse dizer, foi ela quem me teve;/ Mostrou-me o seu quarto,/ Madeira da Noruega, não é bacana?/ Convidou-me a ficar e a sentar onde quisesse./ Olhei então em volta e não vi cadeira alguma./ Sentei-me num tapete, dando um tempo, bebendo do vinho dela;/ Conversamos até as duas,/ Então ela disse, “Hora de ir pra cama”./ Contou-me que trabalhava de manhã e/ começou a rir./ Eu lhe disse que eu não, e me arrastei pra ir dormir no banheiro./ E quando despertei, estava sozinho, este pássaro tinha voado;/ Então, acendi uma lareira, Madeira da Noruega, não é bacana?”
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Ainda que singela, amorosa e delicada, a cena descrita acima retrata, ao afinal, uma perda desconcertante. Escrita por John Lennon e Paul McCartney, “Norwegian Wood” – faixa do álbum Rubber Soul (1965) na qual George Harrison troca a guitarra elétrica por um sitar, instrumento de cordas originário da Índia – pertence a uma discografia que findou por modificar o rock ao introduzir, em suas composições, instrumentos alheios ao gênero e criar processos de gravação que fugiam aos padrões da época. De fato, ao situar o experimentalismo por sobre uma base essencialmente convencional, The Beatles, como era conhecido mundialmente o quarteto de Liverpool, revolucionou o próprio conceito de música popular, provocando tal entusiasmo que se transformou em fenômeno mundial.
Também Norwegian Wood, romance do escritor nipônico Haruki Murakami publicado originalmente em 1997 e lançado recentemente no Brasil com tradução direta do japonês por Jefferson Teixeira pela Ediora Objetiva, o que fez alçar Murakami à condição de autor mais popular e influente do pós-guerra japonês e ícone da cultura pop. Com vários milhões de cópias vendidas naquele país, tendo sido traduzido para diversos idiomas, o romance adquiriu uma importância significativa no Japão e alhures, fundamentalmente por sua profunda influência em toda uma geração de jovens.
Ambientado na Tóquio do final da década de 1960, em meio da turbulência política que marcou a década, Norwegian Wood narra a iniciação amorosa de Toru Watanabe, jovem que acaba de chegar à cidade para estudar teatro na universidade. Morando em um alojamento estudantil só para homens, solitário, dedica seu tempo a identificar e refletir sobre as peculiaridades dos colegas. Certo dia, Toru reencontra Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência, Kizuki, antes de esse cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada, na qual a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível, até culminar com sua internação em um “pensionato”. Tem início então um período de grande dilema para o jovem rapaz, a encruzilhada entre o compasso de espera pela recuperação de Naoko e os encantos com uma outra vida, personificada por uma exuberante e liberada colega de universidade, Midori, com quem também constrói uma relação, e à qual se soma ainda sua relação com Reiko, uma mulher mais velha, amiga de Naoko.
1 “I once had a girl, or should I say she once had me;/ She showed me her room,/ Isn’t it good, Norwegian Wood?/ She asked me to stay and she told me to sit anywhere./ So I looked around and I noticed there wasn’t a chair./ I sat on a rug, biding my time, drinking her wine;/ We talked until two,/ And then she said, ‘It’s time for bed’./ She told me she worked in the morning and/ Started to laugh./ I told her I didn’t and crawled off to sleep in the bath./ And when I awoke, I was alone, this bird had flown;/ So I lit a fire,/ Isn’t it good, Norwegian Wood?” Lennon, John e McCartney, Paul. “Norwegian Wood”. 1965 © Northern Songs Limited. In: The Beatles Complete. London, Wise Publications, s/d, p. 147.; tradução de Bernardo Ajzemberg e Giovanna Bartucci.