CRÍTICA - De Mulheres, Homens E Pérolas
Eis que, “Veio-lhe outro satori”, e “Pela segunda vez na vida, não teve dúvidas, e agiu antes de pensar”: e, sem mais, já fazia parte de seu ser “A importância de ser  prudente”.

Pois que, “O prazer da degustação jamais provinha do que o outro nos oferecesse-- um raciocínio, uma analogia, expressões em latim-- mas, invariavelmente, do que nós próprios estávamos a ruminar. O sabor era mais natural: estava em nossas laringes, não nos ouvidos.” Angústia. “As pontuações das frases (consequentemente, dos raciocínios) ficavam meio maljambradas, mas antes uma sintaxe modernista que ter a voz cassada”.

Mas, eis que, “Ela viu, nesta ordem”. E, o que pensar da ordem dos fatos?  “Ela viu, nesta ordem”. Ordem esta posta à maior parte da humanidade, que a transmuta numa certa ficcionalidade. “...íamos nos interessar um pelo outro. Ele se comoveria com meus caprichos e me ofereceria um empréstimo. Eu me afligiria com sua gastrite, e lhe compraria gotas homeopáticas.”

Por sorte, “(há) uma coisinha  capaz de por a pique todas estas categorias e as demais: o acaso”.  E o acaso quis que “el caminante” se deparasse com uma fábula en “el camino”. Fábula esta que veste um processo elaborativo, pois que é no sonho (aqui, narração alegórica) que a personagem de “As Três Princesas de Serendib” (grifo meu) encontrará sua resposta. “Num tempo em que as palavras descreviam com exatidão cada coisa”.  Pois que “O segredo das princesas era tão simples quanto o da flor:... Corpo, Alma e Nome eram inseparáveis.” Uma vez que “nomes próprios, (...) estes são feitos de uma substância que não pode ser adulterada”. “A coincidência entre nome, alma e corpo só diz respeito ao Criador e a sua criatura, e não às imagens que os outros dela têm”. E, “Dizem que só aqueles que conquistaram o dom de dizer “não”sem alarido, com doçura e suavidade, são capazes de caminhar direto até ele. Dizem, também, que quem já esteve em Maga é capaz de reproduzir o palácio sagrado dentro de seu próprio quarto, ou num círculo imaginário, em qualquer lugar.”

Assim que duas sátiras e uma fábula, aparentemente independentes umas das outras, possibilitam ao leitor, desde quebras de discurso, pontos de indeterminação,  negações, e fundamentalmente, diferentes realidades ficcionais, a construção do próprio texto, um outro texto. “Ela agora sabe o que tem de fazer. Despojar do corpo todos os antigos objetos, sentimentos, memória, as partículas impuras e desnecessárias, a intrusão.

Recompor nos átomos do corpo cada acontecimento, passado, presente, por vir. Eles provavelmente não irão notar, nenhum deles, e não será presciso  explicar-lhes. (...) Nunca, nunca mais fugir de dentro do círculo mágico.”
O brilhantismo da escritura de Marilia Pacheco Fiorillo está em que, afinal -- e sua escritura nos faz lembrar dos textos de Clarice Lispector, Marguerite Duras e as escritoras portuguesas contemporâneas – possamos rir de nós mesmos. Caçoar um pouco da tragédia humana. Se você disser que isto não é lá muito louvável, lhe responderei que depois da leitura de Jean Pierre-Vernant, Mito e Tragédia na Grécia Antiga, talvez seja possível reconhecer, na sua capacidade de um certo deboche das coisas, uma certa dignidade. Claro, tudo é uma questão de pesos e medidas.

Grande literatura, se você me permite, é aquela que, como tudo na vida, pressupõe que aquele do outro lado do texto, do outro lado da linha telefônica, do outro lado do telão, do outro lado do palco, do outro lado da mesa, do outro lado da cama, do outro lado da sala, enfim, do outro lado de nossas  palavras-falas, que o  seu prazer de degustação advenha não só daquilo que o outro lhe ofereça, mas também, e fundamentalmente, daquilo que ambos possam criar, desde o encontro do um com o um do outro, engajados na produção do  terceiro, também diferenciado tanto para o um como para o outro.

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