CRÍTICA - A Maldição Dos Errantes
É verdade, ainda que análises contemporâneas atestem que a constituição atual do corpo biológico da mulher parece estar diretamente associada a este corpo e representações que se tem dele, estudos de ordem histórica realizados na década de 1990, dedicam-se a comprovar a hipótese do modelo de sexo único (“carne única”) – por meio do qual o corpo da mulher é conhecido como uma versão menos importante do corpo do homem. Mesmo quando da entrada em evidência, durante o Iluminismo, do modelo de dois sexos (“duas carnes”), o corpo da mulher era, ainda assim, o oposto incomensurável do corpo do homem.

Menos mal para aquilo que nos concerne aqui: afinal, “o que a ideia de uma histeria masculina vai introduzir é que esse buraco, esse oco (a presença ou a ausência do útero), esse vazio no espírito não precisa de modo algum apoiar-se num vazio real ou num oco real no corpo”, observa Winter. Assim, se aceitarmos situar o problema não mais no mero campo, eminentemente redutor, da anatomia, “a questão muda e se torna aquela de uma sensibilidade particular a uma falta, que não é a ausência real do pênis, mas falta imaginária ou falta simbólica no campo da representação”.

Do ponto de vista clínico a histeria é “uma estratégia defensiva que visa desvelar a si mesmo sua relação com castração”. Não é à toa que “essa errância, durante muito tempo assimilada em psiquiatria à grande mobilidade dos humores e dos afetos nas mulheres, encontra sua expressão metafórica no homem no nível de sua conduta, de sua instabilidade profissional, amorosa ou geográfica”.

Fracassos


Torna-se simples constatar, a partir daí, que homens ou mulheres estão submetidos ao mesmo regime. O histérico inscreverá, então, conforme o caso “em seu corpo ou em sua conduta, os efeitos dos fracassos simbólicos”. Pois sim, se Dom Juan engana-se ao imaginar que as mulheres são a causa de seu desejo, será mesmo porque ele é a causa do desejo delas, fingindo constantemente ser o objeto deste desejo. Por aí, dirá Winter, Dom Juan “se aproxima do que poderíamos chamar a posição do judeu para o Ocidente”. E, talvez, esteja aqui a originalidade do ensaio do autor: “a posição do judeu no sentido teológico ou histórico da palavra, no sentido de que este último representa justamente este objeto causa para o Ocidente. (…) O judeu é um enigma; para o judeu primeiramente e para o não-judeu em seguida, e este enigma é produtor de saber. (…) Para o judeu foi grande a tentação de reunir em si o enigma e o leitor deste enigma, de ser a um só tempo a esfinge e Édipo. Esta tentação teve um avatar histórico: o marranismo”.

De acordo com Winter os marranos, judeus tornados cristãos que, por não terem outra escolha a não ser a de judaizar em segredo, se acharam na situação de sacrificar no judaísmo o que, por um lado, não lhes parecia essencial e, por outro, o que, vale dizer, precisava ser disfarçado. Os marranos foram, por isso, fabulosos derivadores de ritos, valorosos deslocadores de palavras, conquistadores dos buracos negros das ideologias de seu tempo. Assim é que na concepção do autor, o marranismo é “uma das formas menos contestáveis da existência judia; assim entendido de um modo algo apologético, os judeus, longe de sofrerem com a perseguição, disso só deveriam sentir-se lisonjeados. (…) Mas é fácil ler neste discuro os próprios motivos dessa perseguição. Não porque os judeus diriam o verdadeiro sobre o desejo que habita o homem, mas porque este verdadeiro,admitindo-se que o seja, eles o dizem a quem nada lhes pediu e que nada querem saber disso”.

Não é à toa que, nesse sentido, a questão judia é encontrada no cerne de um encaminhamento sobre a histeria, uma vez que – de acordo com Winter –, para o Ocidente, “a questão colocada pela existência do judaismo está no cruzamento das duas questões encontradas na histeria, as da intricação do traumatismo e da memória”. Assim é que, se o judaismo não se reduz aqui à religião judaica, nem tão pouco a neurose histérica à histeria, como é possível não ser errante? Como é possível, parafraseando Winter, continuar a ignorar que não estamos ali onde agimos, e que ali mesmo onde estamos não pensamos?
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