CRÍTICA - A Herança Dos Anos 70. De Que Amanhã... Diálogo
Historiadora e psicanalista, professora na Ecole Pratique des Hautes Etudes, em Paris, e orientadora de teses na Universidade de Paris VII, Elisabeth Roudinesco tem numerosos livros dedicados à historia da Psicanálise. Tendo sido também membro da Ecole Freudienne de Paris de 1969 a 1980 – instituição fundada por Jacques Lacan (1901-1981) em 1964 e dissolvida por ele no ano de 1980 –, Roudinesco publicou, entre outros, a História da Psicanálise na França (Jorge Zahar, 2 vols.), a biografia do psicanalista francês Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (Cia. Das Letras), o Dicionário de Psicanálise (Jorge Zahar), em co-autoria com Michel Plon, e atualmente dedica-se a refletir acerca da Psicanálise e suas relações com a contemporaneidade. Desse exercício nasceu Por que a Psicanálise? (Jorge Zahar), e A família em desordem (Jorge Zahar).
Assim é que De que amanhã... Diálogo é um livro importante na medida em que – “correspondendo à definição clássica do gênero em filosofia e nas humanidades, no qual uma troca cuja lógica se constrói ao longo de dois discursos que se cruzam sem jamais se fundirem e se respondem sem verdadeiramente se opor” – Jacques Derrida e Elisabeth Roudinesco unem forças no intuito de refletir acerca da contemporaneidade e, consequentemente, do porvir. Privilegiando nove temas distribuídos em nove capítulos, os autores se debruçam sobre a herança intelectual dos anos 1970, tão depreciada na atualidade, da noção de diferença (sexual, “étnica”, cultural etc.), das transformações da família ocidental. O quarto capítulo é dedicado, então, a uma reflexão sobre a liberdade humana, o quinto sobre os direitos dos animais e os deveres que o homem contrata com eles, o sexto, o sétimo e o oitavo capítulos são dedicados ao espírito da Revolução depois do fracasso do comunismo, à atualidade da pena de morte e à sua necessária abolição, e às formas modernas de anti-semitismo presente e por vir. O nono capítulo é, afinal, dedicado à Psicanálise, referência comum à ambos os autores ao longo desse diálogo.
Com efeito, a importância desse livro reside em que, partícipes do que se constituiu como o século 20, e hoje o jovem século 21, os autores se debruçam sobre tais temáticas por meio de uma reflexão em que se misturam as abordagens filosófica, histórica, literária, política e psicanalítica e – na medida em que determinada etapa histórica não seja entendida como permanente e que a sociedade humana seja considerada capaz de mudança, o presente não sendo o seu destino final –, ao fazê-lo, nos possibilitam, ao acompanhar tal diálogo reflexivo, voltar atrás no tempo e assim projetar um porvir.