CRÍTICA - Não Basta Desejar Para Ser, É Necessário Tornar-Se
Embora destacando que tanto Heidegger quanto Sartre desenvolveram suas filosofias articulando de diferentes maneiras as questões do ser, do nada e da morte, o autor se interessa por evidenciar, ao percorrer as temáticas da prematuridade, do vitalismo versus mortalismo, do corpo-sujeito, como o pensamento psicanalítico equacionou esta questão. Assim é que, “se como valor a morte é originária, e não derivada, na condição humana, em função mesmo dos pressupostos da prematuridade, da incompletude vital e da longa dependência do outro, isso nos revela que a marca fundamental do sujeito é o desamparo” (p. 162). E será preciso reconhecer, imediatamente, que esse desamparo humano não é superável.
Pois sim, Birman destaca que a oposição sublinhada por ele entre a crença do sujeito na sua imortalidade e o saber sobre a sua mortalidade, ancora-se na construção do registro narcísico do eu, frente ao qual aquele procura recusar e silenciar seu desamparo originário. É nessa medida que o contato primário com a morte é constitutivo do sujeito. Com efeito, a morte é, aqui, entendida como uma possibilidade real e não apenas simbólica, sendo a construção do sujeito nos registros imaginário e simbólico a maneira de controlá-la como possibilidade efetiva. Sem essa passagem originária pelo território da morte não existiria absolutamente subjetividade. Nas palavras do autor, “não somos desamparados apenas por uma insuficiência genético-evolutiva, mas também por vocação, na medida em que o desamparo se materializa pelo rasgão originário que nos marca para sempre… O desamparo não é um momento temporal da história da subjetividade, mas uma marca estrutural da condição humana” (p. 165).
A Carmem de Birman, então, sabe tanto de seus limites quanto de sua mortalidade, sendo a sua principal característica não se horrorizar com os seus limites, uma vez que somente quem se sabe mortal e finito pode permitir-se a existência acidentada do desejo, sem ser tomado pelo temor e horror da morte. “Tudo isso caracteriza um estilo de ser marcado pelo que denomino feminilidade, marca fundamental que permeia Carmem, no qual as miragens narcísica e fálica do eu são colocadas permanentemente em questão” (p.168), observa o autor. Assim, o “estilo de ser” do sujeito se desdobra na feminilidade.
É importante observar que Birman pensa a psicanálise como uma modalidade, entre outras, de estilística da existência (1996). Entende que o sujeito, na psicanálise, fundado na pulsão enquanto força, é marcado por exigências éticas e estéticas; ou seja, a experiência psicanalítica produziria uma maneira singular de existir para o sujeito, forjada a partir dos traços encarnados de que ele disporia em estado virtual, como uma potencialidade. Mas, no entanto, é “a radicalidade da morte, como limite absoluto reconhecido pelo sujeito, que lhe impõe o apelo amoroso como um destino inevitável a ser prosseguido na existência” (p. 168). O que a Carmem de Birman afirma o tempo todo, por meio da busca sempre recomeçada da paixão, “é o quanto se torna incontornável a presença do outro na sua existência… (evidenciando-se), assim, de maneira insofismável a insuficiência de Carmem” (p. 168).
É isto que, neste momento, torna-se importante destacar: uma vez que a possibilidade de viver nos é dada pelo reconhecimento não da vida, mas da morte, se sobreviver não é suficiente, mas torna-se necessário saber da morte para viver, é nessa medida que a feminilidade realoca a diferença sexual e a diferença de gênero num outro limiar, no qual não é mais o falo que está em questão. São às oposições referentes a lógica fálica, ter/ não ter e ser/ não ser o falo, que a feminilidade coloca em questão para ambos os sexos, dando corpo, assim, à radicalidade do desejo.
Em “Castrados de todo mundo, uni-vos! Sobre o erotismo e a violência sexual na atualidade”, ao tomar o acontecimento da decepação por parte da esposa do pênis do marido, acontecimento que se deu nos EUA, em torno de 1996, Birman trata de discriminar entre o gesto e a passagem ao ato para, finalmente, indicar que foi por meio deste impensado, oriundo do sujeito fora de si e se opondo à lógica narcísica do eu, que outros horizontes de pensamento se entreabriram para o sujeito.
Qualquer associação, no entanto, entre desejo e dor, e discriminações entre masoquismos erógeno, moral e feminino não poderiam ser explicitadas em “Estilo de ser, maneira de padecer e de construir: sobre a histeria, a feminilidade e o masoquismo” sem que tomássemos o conceito de pulsão como fundamental. Em seus ensaios anteriores (1996/1997) a este, o autor já propunha que seria a partir dos ensaios freudianos metapsicológicos de 1915, em especial “As pulsões e destinos de pulsões”, que a pulsão passa a ocupar a posição estratégica de conceito fundamental da teoria psicanalítica, isto é, de conceito fundador dos demais conceitos metapsicológicos. Assim é que, a interrogação sobre o registro da força da pulsão (Drang) e da representação (Vorstellung) tem constituído a cena teórica fundamental da interpretação metapsicológica do autor. Se o sujeito é constituído em decorrência da intensidade das forças pulsionais, de tal forma que a problemática que paulatinamente se inscreve no percurso freudiano é a de como o registro da qualidade se constituiu a partir do registro da quantidade, de tal forma que a inscrição da pulsão no universo do símbolo não seria nem imediata nem se realizaria necessariamente, desenha-se, para Birman, uma figura de sujeito cujo traço básico é o desamparo. Birman dirá, então, que frente a este impacto pulsional, o sujeito se protegeria do real da angústia e do desamparo pela colagem a um outro, emprestando seu corpo de maneira “humilhante” para o gozo deste.
Assim é que Birman está, com efeito, avançando a proposição de que o psiquismo e o sujeito do inconsciente seriam destinos de pulsões, desde que estas sejam concebidas no registro da força como exigência de trabalho. “O sujeito do inconsciente seria um dos destinos das pulsões, destino privilegiado, ao lado do ‘retorno sobre o próprio corpo’, da ‘transformação da atividade em passividade’ e da ‘sublimação’. É neste contexto, então, que o sujeito do inconsciente se constitui no psiquismo como um desdobramento das vicissitudes das pulsões no campo do outro” (1997, p. 10). Assim, “o sujeito como destino é sempre o de um projeto inacabado, se produzindo de maneira interminável, se apresentando sempre como uma finitude face aos seus impasses, confrontado ao que lhe falta e ao que não é” (1997, p. 37).
Uma vez realocada a feminilidade como o originário do sexual, como o eixo fundamental do erotismo, seria por meio da feminilização do desejo que o erotismo se tornaria possível. Finalmente, é mesmo da natureza de todo e qualquer desejo que se trata; e, fundamentalmente, das relações vicerais entre o amor e a morte…