ARTIGO - Exibicionistas E Voyeurs Se Encontram Na Tv
Os reality shows, ao contrário, são apresentados ao público como uma overdose de “realidade”. Seus participantes dirigem-se a câmera “como se” a um interlocutor – sendo este interlocutor, em última instância, o próprio telespectador. No entanto, embora seja possível, sim, pensar o reality show como um gênero que envolve algum tipo de participação de cidadões, até então reduzidos a posição de telespectadores, vagarosamente nos damos conta de que “No Limite” é, afinal, um programa editado. Isto implica dizer que as imagens que entram na casa do telespectador foram devidamente selecionadas, assim, a diferença parece estar, fundamentalmente, do lado do telespectador.

Também concordo, o que seduz não é, necessariamente, o conteúdo do programa, mas o fato de ser protagonizado por gente “de verdade” e não por artistas. Assim, se os participantes de “No Limite” se oferecem, oferecem sua intimidade – e porque não dizer integridade – física e psíquica para observação em troca de “fama e fortuna”, o que parece que temos aqui é o congelamento dos telespectadores na posição de voyeurs. É claro, o sucesso mundial do gênero diz algo a respeito do contexto histórico da atualidade. De que contexto se trata?

O que parece estar em pauta na atualidade é uma leitura da subjetividade em que o autocentramento se conjuga ao valor da exterioridade. Assim, nas últimas décadas temos podido constatar que a fragmentação da subjetividade ocupa posição fundamental na nova configuração do social constituída no Ocidente. O eu encontra-se situado em posição privilegiada, posição essa inédita nas novas formas de construção da subjetividade, caso consideremos a tradição ocidental do individualismo iniciada no século 17, uma vez que a subjetividade construída nos primordios da modernidade tinha as noções de interioridade e reflexão sobre si mesma como eixos constitutivos. Em outras palavras, os destinos do desejo parecem assumir uma direção autocentrada e exibicionista. Ter, aqui, é ser. Ter objetos, usufruí-los, proporcionaria a satisfação almejada, implicaria ser reconhecido como imagem por um outro que também o é, situando o sujeito numa determinada definição identitária. Nestas práticas exibicionistas espera-se tudo do objeto e, consequentemente, nada do sujeito.

Tais práticas, no entanto, requerem um espectador, ou testemunha. O próprio ato voyeurista significa, aqui, o reconhecimento deste outro – exibicionista –, uma vez que aliado a problemática da satisfação, da plenitude prometida. Assim, oferecer-se como objeto a um telespectador-voyeur significa “sou já eu mesmo, plenamente”. Esvanecer os limites entre realidade e ficção indica a necessidade deste círculo vicioso no qual a ilusão da plenitude é dada a partir do congelamento mesmo do telespectador como voyeur. Não, não me parece que num espetáculo “interativo” somos convidados a “optar o tempo todo”. Ao contrário, constatamos diariamente que também programas como, por exemplo, “Linha Direta” ou “Você Decide” nos oferecem a ilusão da plenitude porque valorizam um presente fugaz e eterno, oferecendo-nos “satisfação-garantida-ou-seu-dinheiro-de-volta”, seja por meio da participação de cidadões, da resolução de um caso ou crime, ou mesmo por meio do sofrimento compartilhado.

Sejamos claros: nesta prática descartável, não há lugar para experiências de perda que configurem luto – e a conseqüente constatação da incompletude do sujeito –, experiências que têm, efetivamente, a possibilidade de abrir caminho para a subjetivação permanente, para a alteridade e temporalidade e, nessa medida, para um futuro que tenha sentido.

Gente “de verdade” como Sávio, o professor de ginástica de 25 anos que foi o primeiro a ser eliminado da segunda fase de “No Limite 2”, juntou-se a participante Sônia para compor o “júri” que, como Zeca Camargo não se cansava de nos lembrar, exerceu uma função “muito importante” no programa. Função “fundamental”, eu diria: o “júri” é, aqui, imprescindível para que o círculo “participante-exibicionista-telespectador-voyeur” seja mantido, e com isso os números do Ibope.

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