ARTIGO - A Poesia Da Transgressão

Assim é que se, para a psicanálise, o campo do psicossexual é irredutível a dados biológicos, não sendo o corpo nem o somático, nem tampouco o organismo, ultrapassando em muito o registro biológico da vida, marcado que está este corpo pelas pulsões, há que se ter cuidado para não sobrepor o corpo anatômico ao corpo erógeno. Dessa perspectiva, a questão fundamental parece ser: em que medida o “uso” do corpo, assim como da escrita podem, na contemporaneidade, ser constitutivos do sujeito?

Talvez o exemplo mais recente, no campo das letras, da idéia de que o conhecimento possa ser constituído, construído, por meio do uso do corpo e da escrita, por meio da “experimentação” da transgressão, seja A vida sexual de Catherine M., livro da crítica de arte francesa Catherine Millet, lançado no ano de 2001. Um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos anos, tendo permanecido – na França e em todos os países no qual foi traduzido – por muitas semanas na lista dos mais vendidos, facilmente classificável por seus críticos como “pornografia” e sua autora como uma “libertina praticante e declarada”, A vida sexual de Catherine M. tem implicações bastante importantes. Confundindo os limites entre ficção e realidade, confissão e exibicionismo, privacidade e vida pública, arte e marketing, Millet expõe-se com absoluto despudor, ao publicar sua autobiogarfia sexual.

E, contudo, ainda que tenha ganho o então recém-criado prêmio “Sade” – cuja premiação parece ter implicado na validação da obra pela tradição da libertinagem na França –, o ensaio de Millet é, no entanto, bem mais que sexo. De forma distinta do que afirmam muitos de seus críticos, é possível considerar o seu ensaio em nada pornográfico ou libertino. Se, por um lado, A vida sexual de Catherine M. contém descrições de atos sexuais que “violam” a moral convencional, por outro, não tem intenção de excitar o leitor, ao colocá-lo na posição de voyeur de uma experiência erótica. O fato é que – ainda que a ensaísta descreva a série infinita de relações sexuais que manteve –, a obra não reivindica nada em seu conteúdo, e parece estar a frente de seu tempo. É nessa medida que o ensaio de Millet – se não um relato clínico, certamente um “exercício clínico” –, honesto, integro e explicitamente elaborativo, nos remete às questões que destaquei acima e que considero fundamentais. Qual o lugar do corpo na contemporaneidade? Em que medida o “uso” do corpo, assim como da escrita podem ser constitutivos do sujeito?

De fato, a finalidade do sexo para Catherine Millet pareceria ser a de um prazer mais difuso – tendo sido sempre uma forma natural e direta de conhecer a intimidade dos amigos e dos desconhecidos. E, também, a sua própria intimidade uma vez que percebia seu corpo como um todo que não conhecia hierarquia, nem na ordem moral, nem na ordem do prazer – e assim, à medida do possível, cada parte podia ir substituindo a outra. Mas a verdade é que o ensaio, concebido em quatro capítulos – “O número”, “O espaço”, “O espaço contraído” e “Detalhes” –, parece constituir uma saída para o que a autora denomina “autismo benigno” e que a faz “depender inteiramente de um olhar carregado de desejo e das carícias” que acabarão por cobrí-la: sua exposição, distanciada, parece ser mesmo objeto de uma operação especular, de relato. O detalhe e a precisão da narrativa se aplicam não só à descrição dos corpos, às posições sexuais, às secreções e gozos, mas também aos locais e cidades nos quais as cenas se passam.

Assim é que, depois dos números, a autora trata de “ampliar e também contrair os espaços”. Com efeito, como crítica de arte, Millet encontrou na arte moderna e contemporânea obras pictóricas das quais se pode dizer que se situam no limiar entre o espaço imaginário e o espaço que habitamos (o espaço real). O que caracteriza essas obras, dirá Millet, é que não apenas abrem o espaço mas também o fecham. Situando-se, então, no limiar entre o espaço imaginário e aquele que habita, tendo associado o “amor físico” a uma conquista do espaço, Millet considera que “de maneira geral, deve haver uma ligação intrínseca entre a idéia de se deslocar no espaço, de viajar e a idéia de trepar (...)”. É nessa medida que Millet explicitará o quanto foi necessário percorrer “distâncias geográficas para ter acesso a algumas partes de mim mesma”.

Os “Detalhes” vêm confirmar o percurso que Millet parece fazer em relação a si própria: “não é a nudez que temo, ao contrário, é o instantâneo da revelação. (...) É absolutamente necessário passar pelo olhar do outro. Não sei dizer: ‘Olhe!’ Espero, acima de tudo, que me digam com cuidado: ‘Olhe como eu te olho…’”.

Com efeito, desconhecer-se e conhecer-se, desconhecer-se e conhecer-se uma vez mais, tanto por meio da escritura quanto – pareceria ser esse o caso de Millet – por meio do sexo, do uso de seu corpo, implica na possibilidade de instituir um lugar-outro de constituição de subjetividade. Millet parece atestá-lo permanentemente: “Eis-me explicando que prefiro manter coberto tudo que é comum desnudar, enquanto aqui mesmo (neste livro) exponho uma intimidade que a maior parte das pessoas mantém em segredo. Não é preciso dizer que, a exemplo da psicanálise que nos ajuda a abandonar no meio do caminho alguns farrapos de nós mesmos, escrever um livro na primeira pessoa acaba por relegá-la à terceira pessoa. Quanto mais detalho meu corpo e meus atos, mais me separo de mim mesma”, dirá a autora, afinal.

Página: 1 2