A POESIA DA TRANSGRESSÃO:
A morte em Bataille, o corpo em Millet
O erotismo de Georges Bataille leva o leitor ao lugar onde os outros não estão, o saber cotidiano sobre a morte.
Publicado na revista CULT - Ano VII - nº 80 - Págs. 23-25
Maio de 2004
Giovanna Bartucci

Em 1967, a intelectual norte-americana Susan Sontag publicava um instigante ensaio intitulado “A Imaginação Pornográfica” (The Pornographic Imagination). A questão que levantava, à época, dizia respeito ao fato de que a escritora não encontrava, na comunidade literária de língua inglesa, um autor que defendesse a idéia de que algumas obras entendidas como pornográficas pudessem ser consideradas como obras de arte importantes e interessantes. Perguntava-se como isso seria possível, uma vez que a pornografia era tratada como um fenômeno social e psicológico e, ainda, como um “lócus” fértil para avaliações morais.
Com efeito, se Sontag observava então a redução da pornografia a um sintoma psicopatológico e a uma mercadoria social problemática, também chamava a atenção para “o fracasso traumático da sociedade capitalista moderna em fornecer escoadouros autênticos para a perene tendência humana de abraçar obsessões visionárias de alta temperatura, de satisfazer o apetite para modos de concentração e seriedade de caráter autotranscendente e exaltado”. A autora sugeria ainda que “a necessidade dos seres humanos de transcender o ‘pessoal’ é não menos profunda do que a necessidade de ser uma pessoa, um indivíduo”. E, finalmente, sustentava que “a imaginação pornográfica tem, apesar de tudo, seu acesso estranho a alguma verdade. Tal verdade – sobre a sensibilidade, o sexo, sobre a personalidade individual, sobre o desespero, sobre limites – pode ser compartilhado quando se projeta na arte”.
E, de fato, será na sua relação com a arte que a literatura erótica se constitui enquanto tal, na medida em que o que denominamos “poesia da transgressão” também é conhecimento. “Aquele que transgride não apenas desobedece a uma regra. Ele vai a um lugar que outros não estão; e ele conhece algo que outros não conhecem”. No caso do escritor e filósofo Français Georges Bataille, poderíamos dizer que esse “lugar que outros não estão” constituiu-se no seu “saber cotidiano” sobre a morte.
Nascido em Billon, em 1897, vindo a falecer em Paris, em 1962, Bataille valeu-se de suas experiências pessoais e memórias de infância para compor tanto sua obra ficcional quanto teórica. Com um pai acometido pela cegueira antes do nascimento do filho, e parcialmente paralizado antes que Bataille completasse três anos de idade, a lenta e dolorosa morte de seu pai e a insanidade periódica de sua mãe – transmutados na experiência da proximidade cotidiana com a morte – findou por configurar-se como o motor essencial de sua obra. Isto porque as obras tanto ficcionais quanto teóricas de Bataille centram-se no horror e na obscenidade. “A obscenidade (significando) a perturbação que incomoda um estado dos corpos semelhante à possessão de si, semelhante à possessão duradoura e afirmada”.
Em outras palavras, para o filósofo, cada sujeito é descontínuo como indivíduo. Nessa medida, “para nós, que somos seres descontínuos, a morte tem o sentido da continuidade do ser: a reprodução leva à descontinuidade dos seres, mas ela coloca em jogo sua continuidade, quer dizer, ela está intimamente ligada à morte”. Assim é que, para Bataille, “o que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas da vida social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades que somos nós”. O erotismo, no entanto, também é conhecimento – uma vez que também é a violação ou a transgressão dessa descontinuidade. Levando a uma fusão de seres, atestando a ruptura de limites e fronteiras, “do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na morte”. “Um caminho para a continuidade do ser na morte”, sintetiza Bataille em O erotismo, trabalho publicado em 1957 e que condensa as principais dimensões de sua obra.

Mas o fato é que se, para um dos representantes do pensamento pós-estruturalista – que tem como um de seus aspectos o questionamento da moderna epistemologia baseada na distinção entre sujeito e objeto –, tanto as suas obras ficcionais, tais como História do olho (1928) ou Madame Edward (1937), publicadas sob pseudônimos, quanto seus textos teóricos – A experiência interior (1943), por exemplo –, se fazem acompanhar de referências ou “ensaios” dedicados às experiências autobiográficas associadas ao tema em questão, confundindo os limites entre ficção e realidade, como que se situando entre a ficção e a biografia, as questões relativas ao lugar que o corpo ocupa na literatura erótica contemporânea são fundamentais.