ARTIGO - A Força Da Subversão De Lacan Em ‘Outros Escritos’
Consagração – Convertendo-se, então, no diretor da coleção Le Champ Freudien (O Campo Freudiano) em 1964, cujo primeiro título a ser publicado foi um texto da psicanalista Maud Mannoni (1923-1998), Lacan veio a aceitar a reunião e publicação de seus “escritos” somente em 1966.

Com efeito, foi o próprio Lacan aquele a escolher o título de sua obra, tendo como objetivo distinguir a obra escrita da obra falada que continuava a enunciar em seu seminário. O primeiro volume dos Écrits (Escritos, Jorge Zahar) – reunindo ensaios que contêm os princípios que servem de base ao seu sistema de pensamento – chegou, então, às livrarias em 1966, após o árduo trabalho de Wahl e do próprio Lacan. A consagração tão esperada havia, afinal, chegado: 5 mil exemplares vendidos em menos de 15 dias, enquanto milhares de outros seriam ainda vendidos posteriormente.

Assim é que os Outros Escritos – volume que dá continuidade aos Escritos – contêm alguns dos textos à época considerados por François Wahl – o único a efetivamente ocupar a função de editor junto a Lacan – como não sendo “suficientemente lacanianos”, ou mesmo freudianos.

De qualquer forma, temos hoje reunidos, dentre outros, alguns ensaios magníficos como Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo, de 1938, no qual Lacan se antecipava em muito ao que hoje discutimos sob a égide de “o declínio da função paterna na sociedade contemporânea”, Televisão, uma entrevista concedida por Lacan para um programa realizado por Benoît Jacquot em 1973, Lituraterra, de 1971, como também, o Ato de Fundação, proferido por Lacan em 21 de junho de 1964 quando da fundação da sua École Freudienne de Paris, e também a sua Carta de Dissolução, redigida à 5 de janeiro de 1980, quando da dissolução da École.

Se o centenário de Lacan foi a oportunidade para a publicação na França, em 2001, dos Outros Escritos, esse volume reúne em língua portuguesa muito do ineditismo do pensamento de Lacan – ainda que “suficientemente lacaniano ou não”. E com efeito, o que a publicação desse volume faz é trazer à tona o fato de que há – se fizermos jus aos tempos que correm – toda uma geração de analistas que se viu obrigada a fazer o luto da “função do mestre”.

Se, como reconhecem tanto psicanalistas quanto historiadores da psicanálise, vivemos hoje um período em que não há mais mestres – e não só em psicanálise –, em que a questão que se coloca diz respeito à possibilidade de resistência face à renúncia de qualquer plano ou esperança utópicos, defrontamos uma oportunidade ímpar.

De fato, se a noção de utopia pode ser compreendida como motor do desejo, como veículo de transmissão dos ideais, da firme esperança de um bem por vir – na medida exata em que determinada etapa histórica não seja entendida como permanente e que a sociedade humana seja considerada capaz de mudança, o presente não sendo o seu destino final – aqueles que foram, um dia, partícipes primordiais na experiência de legitimar o que lhes acontece sabem, por experiência própria, da “força de subversão” contida na experiência psicanalítica.

E talvez seja tempo de, quem sabe, recuperarmos muito do significado que Freud – e Lacan, por seu lado – atribuíram à experiência psicanalítica.
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