ARTIGO - Entre Without Boundary E A 27ª Bienal
Intitulada “Como viver junto”, a 27ª Bienal Internacional de São Paulo abriu suas portas para visitação pública no mês de outubro. Com curadoria-geral de Lisette Lagnado e co-curadoria de Adriano Pedrosa, Cristina Freire, José Roca, Rosa Martínez e Jochen Volz, para o bloco “Marcel Broodthaers”, esta edição trouxe algumas novidades. A primeira delas sendo a formação de um comitê curatorial – o que permitiu deslocar as decisões curatoriais do curador-geral para o coletivo de curadores. O fim do segmento das representações nacionais, em que cada país indicava um artista, acrescentando-se posteriormente convidados do curador, foi a novidade seguinte. Esta veio acompanhada de viagens de pesquisa, por meio das quais os curadores visitaram diversos países com o objetivo de garimpar nomes de participantes. 118 artistas prepararam, então, projetos inéditos para a mostra, exibindo preferencialmente mais de um trabalho, o que possibilitaria uma melhor compreensão da abrangência de sua obra.

Inaugurada de maneira inédita em janeiro de 2006, com um dos 6 seminários programados para acontecer durante todo o ano, a idéia básica foi a de extender temporalmente um evento pontual – que anteriormente tinha a duração de dois meses – para que a discussão de seus conteúdos simbólicos pudesse se tornar pública e atingir o maior número de participantes possível. Esta edição da Bienal conta ainda com uma Quinzena de Filmes, publicações de livros não apenas documentais, mas que acolheram projetos artísticos, e um Projeto Educativo cuja função foi a de ir às salas de aula e capacitar professores nas áreas periféricas.

Entretanto, se o título “Como viver juntos” – emprestado dos seminários ministrados por Barthes, no Collège de France (1976-1977), por meio dos quais o autor refletiu acerca do “viver-junto” de grupos restritos nos quais a coabitação não exclui a liberdade individual – embasa a concepção da Bienal como um todo, as obras que talvez permitam ao visitante compartilhar, de fato, os conteúdos simbólicos em circulação sejam aquelas resultantes do modelo das Residências Artísticas, ora adotado. Dez artistas, oriundos da Africa, América Latina, Canadá, Europa e Japão, aqui permaneceram de um a três meses. A mescla de suas experiências com as descobertas locais – tais como o açucar de Recife, o látex de Rio Branco, a paisagem de São Paulo – produziu obras como “Doçura” (2006), uma Recife feita de açucar pelo beninense Meschac Gaba, ou, então, “Projeto de árvore de látex” (2006), uma seringueira feita com látex, erguida no Acre pelo colombiano Alberto Baraya, em colaboração com as comunidades associadas à exploração do substrato da borracha.

Contudo, se a arte tem como função interrogar tanto valores estéticos, quanto sociais e culturais, e ainda que a condição de “viver junto” dos artistas mencionados, e de tantos outros participantes, tenha sido evidenciada por suas obras, é importante salientar que a condição de promoção de um distanciamento crítico, inerente à prática artística, nem sempre se faz presente por meio destas mesmas obras. O fato é que na medida em que as diferentes atividades da Bienal terminaram por “operar na dimensão social e dar uma resposta pública aos acontecimentos políticos”, característica das práticas artísticas contemporâneas, talvez devamos entender que – por ora – a possibilidade de promoção e incorporação do novo está contida nesta dinâmica específica mesma: a de ampliação e fertilização constante das fronteiras da arte.
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