ARTIGO - Entre Without Boundary E A 27ª Bienal
ENTRE WITHOUT BOUNDARY E A 27ª BIENAL: SEM TRANSGRESSÕES, COM AVANÇOS

Publicado em www.giovannabartucci.com.br
Outubro de 2009

Giovanna Bartucci

De fevereiro à maio de 2006, o MOMA, Museu de Arte Moderna de Nova Yorque, expôs trabalhos de 17 artistas contemporâneos, 15 dos quais originários de países do mundo islâmico, que, no entanto, moram e trabalham em cidades como Buenos Aires, Londres, Nova Yorque, Paris, Zurique. Intitulada “Sem Fronteira: Dezessete Maneiras de Olhar” (Without Boudary: Seventeen Ways of Looking), a exposição, com curadoria de Fereshteh Daftari, teve como temas condutores o aspecto formal das obras, questões de identidade secular ou religiosa, e, finalmente, questões de crença.

É de se esperar que, no caso de uma exposição cuja maioria de seus artistas vive a experiência de deslocamentos de longa duração para além das fronteiras nacionais, as referências clássicas da arte islâmica, como a caligrafia, o desenho ou trama de tapetes, a pintura miniatura, tenham sido revisitadas, seja para serem reafirmadas, resignificadas ou transformadas. E, com efeito, o objetivo de “Sem Fronteira” foi o de possibilitar uma reflexão acerca da diversidade de trabalhos que têm emergido de uma cultura frequentemente percebida como homogênea, num mundo globalizado. Assim, se as obras manifestam tanto rupturas quanto elos de ligação com seus lugares de origem, revelam também o meio pelo qual resignificam ou subvertem as tradições estéticas que trazem consigo, indicando a dificuldade de fazer da origem étnica de um artista um fator definidor de sua arte.

É provável também que tal exposição – cujo foco curatorial salientou os desdobramentos que tais vivências de longa duração podem ter em artistas e obras – jamais teria sido pensada antes dos anos 1990, década em que as transformações nas esferas política, econômica, social, cultural e geopolítica, iniciadas na década de 1970, começaram a ser identificadas como o processo de globalização. Idealizada em meio a primeira década dos anos 2000, em tempos de especularização e virtualização das relações sociais e culturais, “Sem Fronteira” reafirmou a permanência, em meio ao século XXI, de características de uma arte contemporânea fecundada pelo então pensamento pós-estruturalista.

De fato, em 1967, o cineasta e filósofo francês Guy Debord (1931-1994) denunciava o caráter fundamentalmente tautológico da sociedade modernizada - a “sociedade do espetáculo” - como decorrência do fato de seus meios serem também seu fim. Seu colega, o semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980), indicava ainda a substituição da noção de “obra” de um autor (ou de um artista) – considerado então como pai fundador e proprietário exterior da obra, idéia que Barthes recusou – pela noção de “texto”, que desdobrou na noção de “escritura”, plural e anônima. Ou seja, enquanto Debord sugeria que quanto mais o “espectador” aceita reconhecer-se nas imagens ofertadas, menos vive, menos compreende a própria existência e o próprio desejo, instituindo-se, assim, a alienação do sujeito em favor do objeto contemplado, Barthes avançava a idéia da “morte do autor”. Em 1969, o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) retomava a questão de Barthes para propor a noção “função autor”, na qual o que estaria em causa seriam os modos e condições de existência social do discurso. E, em 1979, o também filósofo Jean-François Lyotard (1924-1998) chamaria a atenção para o fato de que a legitimação do conhecimento não poderia ser depositada então em uma “grande narrativa (da modernidade)”, dado o seu caráter universalisante e utópico.

O fato é que, como consequência, as relações artista-espectador (ou, “autor-leitor”) também experimentaram transformações. Se, em vias de ser destronado, a noção do artista como “gênio trágico” já vinha se dissipando há alguns anos, a função das práticas artísticas começava então a sofrer modificações profundas. Não à toa, as propostas conceituais, a fotografia, a performance, as instalações, filmes e vídeos, e apropriações advindas da cultura de massa exercem, hoje, função similar a da pintura e a da escultura, no que diz respeito à função da arte no mundo contemporâneo.
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