ENTRE PERSONS, MARINA
Publicado em www.giovannabartucci.com.br
Setembro de 2009
Giovanna Bartucci
“Quem foi Luis Sérgio Person?”, “Qual o impacto de sua obra no cenário brasileiro?” são perguntas que podem certamente ser respondidas por
Person, documentário de Marina Person, lançado em circuito comercial no segundo semestre de 2006, em nova versão com 70 minutos, 12 minutos a mais que a versão exibida pela TV Cultura, em 2003.
Person também é parte integrante de um projeto que, contando com publicações dedicadas ao cineasta e, agora, com o lançamento de seus longa-metragens em DVD, pela Vídeo Filmes, visa recuperar a obra de Luis Sérgio Person, um dos artista mais originais da São Paulo do pós-guerra, morto em um acidente de carro, no ano de 1976.
De fato, em artigo publicado na revista
Cinemais (Vol. 37, Págs. 260-264, Outubro/ Dezembro de 2004), sugeri que ao tomar a ausência paterna como tema, e elementos da biografia paterna e autobiográficos como meio de realização,
Person finda por confundir os limites entre realidade e ficção, privacidade e vida pública, situando-se, assim, entre a biografia, a autobiografia e a ficção. Aqui, no entanto, desejo chamar a atenção para o instrumento por meio do qual
Person atesta, como sugeri anteriormente, a capacidade de reconstrução dos sujeitos por meio da arte.
As primeiras cenas do documentário talvez condensem o que este filme tem de mais inovador. Montagem realizada com material de arquivo da família, da década de 1970, acrescido de cenas da própria Marina e da irmã, a apresentadora e VJ Domingas Person, conversando com sua mãe, a também cineasta Regina Jehá, registradas no final da década de 1990 e inícios dos anos 2000, somadas ainda à cena das irmãs relembrando as horas que se passaram após o sepultamento do pai – ao qual também assistimos por meio de material de arquivo –, esta montagem compõe o registro do passado e do futuro, no presente dos anos 2000.
Detalhando: as cenas da celebração do primeiro aniversário de Domingas, por meio das quais compartilhamos da dinâmica familiar de então, a conversa entre as irmãs e, acima de tudo, o registro em
off da voz da mãe, mémoria viva das duas meninas, resgatando, agora para a posteridade, a experiência que foi a de contar e, do lado de Marina e de Domingas, a de receber a notícia da morte do pai, são o pano de fundo para a pergunta que a Marina de seis anos faz a mãe: “O que que vai acontecer agora?”. Pergunta que não teria importância caso a sua função fílmica não assinalasse o caminho a seguir: recomeçar.
Portas abertas, a pergunta é seguida, então, por um trabalho de resgate, de exercício de memória e tentativa de recuperação da história paterna, proposto aos amigos, colaboradores e familiares do cineasta, construído por meio de depoimentos, extratos de filmes de Person e arquivos familiares. Dito de outra forma, o passeio pelo tempo será o que permitirá a Marina olhar para trás e para frente e, nesse exercício de ir e vir, construir um “agora” renovador.
O testemunho da diretora é claro quanto a isso: “Eu conheço mais o meu pai por causa do cinema, por causa dos filmes que ele fez, quando já não tinha mais a imagem dele tão forte na minha cabeça (...) É uma nova maneira de você se relacionar com uma pessoa, uma maneira que não é cotidiana, que não é física, mas é uma maneira que eu encontrei”. De fato,
Person faz de um tempo ido uma experiência de “constituição de subjetividade” por meio da arte.